Quem sou

Quem sou
Vocação: Padre - Outras ocupações: artista de ilusionismo e hipnotismo

domingo, 14 de julho de 2013



   SE O MUNDO ENGANA, DEUS ATRAI

 

    Notícias bombásticas deram conta do facto de, na Holanda, os edifícios das Igrejas estarem a transformar-se em espaços de museus, galerias de arte e outras actividades, melindrando assim as sensibilidades pela tão grande discrepância entre a sua finalidade inicial, - casa de comunidade crente e orante - e a proposta destes últimos tempos.

    Recordo, aqui e a esse propósito, uma história que, muito bem, pode ser ou vir a tornar-se verdadeira.

    O cura da aldeia, nesta convulsão de mentalidades e práticas menos religiosas ou cristãs, foi experimentando uma dispersão na deserção progressiva dos fiéis, quanto à prática dominical e outros exercícios litúrgicos. Nos derradeiros anos, ainda algumas pessoas mais idosas se abeiravam dos sacramentos, bem como muitas crianças frequentavam a Catequese. Mas, também estas, no seu crescimento, foram desaparecendo e dando lugar à opção pelo desporto e afins. Por sua vez, os mais idosos foram-se sumindo, uns atrás outros, pela lei inexorável da morte.

    O pobre prior começou a considerar-se peça de adorno e uma mera espécie de cangalheiro. Nem os vivos, que em ar de snobismo, acompanhavam os funerais, entravam na Igreja para as cerimónias fúnebres. Limitavam-se a pôr em dia a conversa com os amigos, no adro, alheando-se completamente da obra de misericórdia a aconselhar o sepultamento dos mortos com oração e reflexão.

    A igreja, edifício, ficou literalmente às moscas porque a Igreja, pessoas, viva, também havia morrido já. Nem os festejos da aldeia em honra dos patronos serviam, como nos anos atrás, para reunirem os fregueses.

    Passaram-se dias a fio, meses e mais longas temporadas.

    O padre ainda esteve tentado em propor a venda do edifício para quaisquer outros fins, mas sentiu necessidade, ele mesmo, de levar vida mais litúrgica e piedosa. Lembrou-se, então, que, naquelas circunstâncias e sem oposição de ninguém, teria tempo para a celebração de Missa, longe do dever consultar relógios nem preocupar-se com os afazeres dos demais fiéis.

    Decidiu, por isso, naquele Domingo, entreabrir as portas do templo. Preparou tudo para a grande solenidade. Paramentou-se com as alfaias mais ricas. Entrou sozinho no Santuário, iniciou a celebração, deu respostas à sua liturgia, rezou em voz alta, fez longos momentos de silêncio, meditou durante muitos minutos a Palavra de Deus, cantou com entusiasmo os seus louvores a Deus, consagrou o pão e o vinho, passou a “ver” e adorar o Corpo e o Sangue de Jesus, entregue e derramado pelos homens que O iam abandonando, esquecidos da felicidade da Salvação. Deu acção de graças como nunca, entrou em êxtase e até, santamente, adormeceu. Quando acordou estava noutro Céu e noutro mundo. Nem a falta das refeições o incomodou. Sentiu-se em plena paz.

    Aproximou-se a noite. Dia cheio de felicidade no encontro da Fé. Foi celebrante e fiel assistente, foi presidente da assembleia e acólito, deu e recebeu a bênção, acolheu-se e despediu a si próprio.  

    Continuou este peculiar modo de estar e viver no Domingo seguinte, no outro e mais no outro, por aí adiante. Triste, mas sentia-se confortado pela fé que ia tomando, então, outros contornos.

    Por curiosidade, uma criança, num desses instantes, ouviu o cantar de um homem só, abriu devagarinho a porta, entrou na Igreja sem que padre desse por isso. Não percebeu nada de quanto se desenrolava, mas ficou curiosa. Noutro dia voltou com a avó, depois chamou a mãe e o pai e por aí fora. O sucedido correu a aldeia, de lés a lés.

    Ao fim de alguns Domingos, sempre com o mesmo ritual, o fundo da Igreja foi-se povoando com mirones.

    Agora, o resto, podemos imaginá-lo.

    A necessidade de Deus revisitou e revitalizou os corações das pessoas. Nunca mais alguém pensou em alienar o edifício.

    Readquiriu-se a esperança de que os homens hão-de ver que o mundo, com todos os seus prazeres e atractivos, não responde aos anseios humanos, mas a Palavra, a Graça e o Amor, experimentados em Deus, apontarão o único Caminho de Verdade, Luz e Vida.  

 

quinta-feira, 18 de abril de 2013


 

 

 

    O “PORREIRISMO”

 

    Nos tempos que correm, sucedem-se episódios na vida das pessoas que parecem acompanhar as necessidades sociais, como também, o depravar-se tudo quanto é valor do antigamente.

    A crise, instalada contra a vontade e sem a colaboração do cidadão comum, poderá ser uma das causas motoras dos incidentes a que esta sociedade quer estar anexa. Há a impressão de nada se conseguir que não tenha, por trás de si, uma carga sociológica da tão propalada “cunha”. Ela passou, frequentemente, a ser o maior agente empregador nacional.

    Quem fala sobre tal pecha a ocupar os espaços, por vezes, de uma forma errada por ausência de capacidades e aptidões ou, como se diz resumidamente, idoneidade, pode referir também todos os sectores onde a vida humana se desenvolve diariamente. Torna-se quase obrigatório que o favorzinho seja feito, mesmo escamoteando-se quaisquer itens daquela norma ou lei que deve reger o bom senso de uma sociedade organizada e, mutuamente, respeitadora.

    Vou-me lembrando das queixas, muitas vezes, trazidas à tona pelas pessoas que, em concursos para determinados postos de trabalho, não vêem respeitados os seus valores adquiridos. Embora a classificação nos mesmos tenha sido superior para alguém, pode acontecer-lhe, todavia, ser preterido por outrem, portador de uma fisionomia mais simpática e atraente ou arrastando consigo alguma benesse para o agente empregador o qual arranja sempre um álibi explicativo relativamente ao seu desvio. A partir daí, e quando assim acontece, nada mais ou pouco pode fazer-se.

    É frequente a tentação de peitar-se alguém para obter o tal favor, pensado necessário em determinadas circunstâncias ocasionais.

    Quando o indivíduo abordado fecha os olhos da consciência, já de si embotada, torna-se patente o grau de desigualdade e injustiça criado, sobre o que não haverá um controle possível pois todos os outros, seus pares, adquirem um direito de reclamar tratamentos iguais.

    Poderão suceder tais acidentes nas entidades tanto empresariais, como governativas e também eclesiais.

   Até, aqui, não raro, se confundem os conceitos de consciência moral, religião e imoralidade.

    Significa isto, a Igreja ser de origem divina, mas construída sobre homens que formam uma sociedade normal e, obrigatoriamente, conduzida com regras, supostamente pensadas e baseadas nas atitudes de humildade e fé.

    Frequentemente serão, mesmo, aqueles que, não tendo qualquer prática religiosa, procuram subornar quem é responsável pela correcta condução de comunidades na área da prática doutrinal.

    Se esses, por infelicidade de vistas grossas, conseguem os seus objectivos imediatos, logo acham que o “palerma peitado” é um “gajo porreiro”. Todos os outros passarão para o rol dos antiquados e atrasos de vida pois não deixam que as coisas andem para a frente, sendo mesmo considerados como causa principal de muitos abandonos, na grei do Senhor.

    Entretanto, tais pessoas não abandonam coisa nenhuma porque já nada tinham nem eram.

    Pessoalmente, eu não quero ser simpático e, tão-pouco, “porreiro” por ainda ter a noção de que o dinheiro e os favores se apresentam como alienantes dos valores positivos e podem dificultar, irremediavelmente, o bem-estar comum.

    O “porreirismo”, (enquanto corrente psico-filosófica dos banais), e a mentira não estarão muito longe, entre si.

 

                                                                           

                                                                                        

terça-feira, 9 de abril de 2013


           ALELUIA! CRISTO VOLTOU À VIDA

          Era ainda muito cedo,

              Ou alta madrugada.

              Umas mulheres, ameaçadas pelo medo,

              Romperam, em grande segredo,

              Aquelas horas escuras. 

              Com surpresa, carinho e compaixão

              Viram a pedra do túmulo retirada, 

              E isso as fez testemunhas seguras  

              Da Ressurreição.

 
              O sepulcro, de verdade, estava vazio. 

              Era um momento, deveras, sério 

              E indescritível o mistério. 

              Assim é para todos quantos, em desvario, 

              Buscam, na materialidade do conforto, 

              Como seu, um deus morto.

 
              Num primeiro impulso de ardor,

              Sem saber bem como fazer, 

              Põem-se a correr 

              Porque a reaparição do Senhor 

              Ninguém pode nem deve desconhecer.

 
             Foi-se a noite e raiou novo dia. 

              O Jesus está ressuscitado, 

              A Vida cantou vitória, 

              Na Graça se afogou o pecado,

              O Homem foi resgatado 

              E poderá entrar na alegria 

              Da Glória.

 
                 Um jardim, povoado de espinhos e cardos, 

              Albergou, no silêncio das suas entranhas, 

             Aquele que carregou em Si os fardos 

              Das acções vãs e tacanhas 

              De quem, chamado para amar, 

              Preferiu simular

              De bem-querer suas sanhas.

 
                A Boa-Nova voou como o vento, 

              Transformou corações endurecidos e duvidosos  

              E muitos correram, ansiosos, 

              A testemunhar o acontecimento. 

              Tudo quanto restava de Quem morreu na Cruz,

              No alto do Calvário, 

              Eram apenas as ligaduras e o Sudário, 

              Como autênticos fachos de Luz, 

              A iluminar todos os que, de séria vontade, 

              Procuram possuir a Verdade.

 
              Não mais procuraremos, junto dos mortos, 

              Aquele que está, vivo, entre nós 

              E, ouvindo, agora, Sua voz, 

              Elevamos até Ele nossos olhos absortos  

              Para cantarmos a grandeza da Salvação

              Que nos deu pela Ressurreição.

 
               Aleluia! Cristo voltou à vida, 

              O mundo mudou 

              Porque Ele venceu a morte, 

              Apontando outro norte 

              Ao Homem a quem deu guarida  

              E, desde sempre, amou.

 
          (Domingo de Páscoa, Ano C – Jo.20,1-9, ou Lc.24, 1-12)    

 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


                            SOMOS PÓ LEVANTADO

                   Ó Homem que, a cada instante,
                   Vagueias, qual simples errante 
                   A calcorrear avenidas e ruas,
                   De cabeça erguida e ideias nuas, 
                   Num amálgama de aparência, 
                       Pela riqueza do ter, 
                   Pavoneando idealismo e saber 
                   Mas omitindo a experiência 
                   Do ser.

                   Pára. Antes que seja tarde, 
                   Mergulha nesse vil alarde, 
                       Emerge do vazio do teu nada, 
                   Recomeça nova caminhada 
                      Em busca de uma outra riqueza 
                      Que habita o humano coração 
                      De quem, com boa vontade, 
                  Procura, sem veleidade, 
                  A grande certeza 
                  Da Salvação.

                  Quem és tu, enquanto trabalhas, 
                  Entre desafios e batalhas, 
                  Ao lado dos outros, teus iguais, 
                  A lutar sempre e sempre mais 
                      Pelo ideal informe, sem sentido, 
                      Desprezando os grandes sinais 
                  Deste tempo definido?!

                  Quem pensas tu ser,
                     Mesmo se caminhas bem de pé,
                  Quando olhas para trás 
                  Onde tudo deixas, porque incapaz 
                     De entender 
                  A alavanca da Fé?!

                 Todos somos apenas um pó levantado 
                    Com propensão para o erro e pecado 
                    Mas chamados à conversão, 
                    Em cada hora que passa,  
                 Porque o Senhor dá a graça
                    Da Redenção.

                 Quando realizas tua acção 
                 Não procures ser elogiado 
                 E ao fazeres tua esmola ou legado
                 Nem por isso esperes a ovação.

                 Se rezas, fá-lo no silêncio do teu quarto 
                 Com poucas palavras, simples e leves 
                 E, se te atreves,  
                 Jejua de coração alegre e farto 
                 Da força divina que te sustenta em pé 
                 Na humildade e certeza 
                 De encontrar a beleza 
                    Da Fé.

               (Quarta-feira de Cinzas, Ano C – Lc.6,1-6. 16-18)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

FATALISMO E PREVENÇÃO


 

      FATALISMO E PREVENÇÃO

   Não sou nem penso querer ser fatalista e também não me encaminho por essa via que atribui tudo ao destino donde não haja saída possível.
    Acredito, sim, que todas as coisas e acontecimentos estão no pensamento do Criador, até mesmo quando Ele usa a mão-de-obra natural ou humana para manifestar a Sua presença e o Seu poder sobre toda a natureza criada.
    Com a pressa como nós ouvimos algumas coisas, não prestamos atenção a pequenos nadas aparecidos diante dos nossos olhos como sinais reveladores da existência de Alguém que superintende e controla todo o desenrolar das forças deste planeta que habitamos.
    Interessa-me observar os acontecimentos, sejam eles quais forem, numa perspectiva racional para a confrontar, depois, com a minha atitude na aceitação de Fé.
    Fomos “visitados” por uns ventos fortes e mais alguma chuva. Houve casas destelhadas, muros derrubados, colheitas goradas, indústrias e produções destruídas. Tudo isto e mais outros pormenores a serem ocasião de pedidos e exigências dirigidas aos poderes constituídos na esperança de se obviarem ou aliviarem consequências mais gravosas para uma economia familiar já de si muito periclitante e enfezada.
    Lembramo-nos certamente de outros tempos em que as catástrofes naturais aconteciam, arrastando consigo o aumento das carências, para não dizermos miséria, e até pareciam mais frequentes do que nestes nossos tempos de agora.
    Lançamos então a nossa atenção para horizontes bastante alargados de outras zonas do globo onde parecem amontoar-se destruição sobre destruição, fome sobre fome, morte sobre morte.
    É longe de nós, pensamos. Lamentamos, mas concordamos em esquecer mui rapidamente e, de certeza, tentaremos levar a nossa vidinha em frente, sem outras grandes preocupações.
    Os meios de Comunicação têm o condão de causar em nós um calo na visão e facilmente endurecemos.
    Passados e, talvez, vencidos os primeiros impactos, tudo retorna ao desenrolar calmo e alienado de todos os dias. Algumas pessoas ainda vão fazendo os seus balanços e, assim, tomam consciência da dimensão dos prejuízos, martirizando-se certamente pela incúria em relação a determinados bens que poderiam, eventualmente noutras circunstâncias, ser preservados.
    Eu volto, de novo, a referir os fortes ventos e chuvas para expressar o meu pasmo ou perplexidade por constatar o facto da enorme devastação, acontecida em muitos sítios onde, no meio do estendal de tantas árvores de grande porte derrubadas, terem ficado umas outras bem de pé, como se nada tivesse acontecido, em redor.
    São sinais dos tempos.
    Fico, por isso, a congeminar a ilação que deva retirar-se de tudo isso.
    E cismo: - aqueles que tombam por quaisquer vicissitudes negativas da vida do trabalho, empreendimento, espírito de conquista, emigração, clubismo e noutros campos passam sempre a serem olhados como os coitaditos da sociedade porque não se aguentaram em pé por negligência, ausência de esforço ou inaptidão, portanto, merecedores de serem cortados do terreno e lançados na fogueira do esquecimento.
    Pelo contrário, também passará por nós o ímpeto de nos extasiarmos com quem permanece de pé, vencendo a vida e as suas incongruências.
    E nisso teremos, todos nós, de prevenir ou aprofundar as raízes do nosso agir com uma esperança fundada para nos agarrarmos ao que possuímos de mais seguro, quero dizer, à fé e ao “pau da barca”.
    Assim parece que ultrapassaremos o dito fatalismo.

 

                                                                             

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012


 

 

      ESCAPES DE CAMALEÃO

      Nunca fui grande admirador de quaisquer sáurios. Contudo, não vou afirmar que os detesto porque compreendo existirem eles, nas suas diversas versões, para o devido equilíbrio da Natureza.
     Observados através de vidros fechados e nos locais próprios, geram uma certa curiosidade e admiração mas, junto a mim, surgidos de uma qualquer murteira e sem avisar, confesso que me põem os cabelos em pé de guerra.
     Há quem lide com tais bichinhos com muita naturalidade e até os ponha nos aposentos mais íntimos como companheiros inseparáveis. Quanto a isso, nada a opor. Cada qual convive com o que quer e mais se identifica.
     Lembro-me de, quando estava nos primeiros passos da minha missão, alguém oferecer lá para casa um animálculo, parecendo tão curioso como repelente: - um camaleão.
     Mesmo não sendo opção para minha admiração, eu passava alguns momentos a observar como mudava a cor da sua “indumentária” consoante o poleiro que ocupava e a presa a alcançar. Era só aguardar uns segundos e, fixada a vítima, a língua, verdadeira espada finíssima num movimento instantâneo, alongava-se largos centímetros e nada falhava. Cada tiro, uma mosca ou aranha.
     Todavia, o bicharoco teve a desconchavada ideia de rumar até ao meu quarto. Vi-o numa noite quando me preparava para o sono repousante. Embora soubesse que ele não faria mal aos humanos, nada de confiar. Portanto logo me fui munir de vassoura e pá do lixo e foi ver o meu indesejável companheiro voar, janela fora, em direcção ao campo de milho do vizinho, para nunca mais ser visto, gorando-se todos os posteriores esforços do verdadeiro dono para o recuperar. Bem me perguntava mas eu continuava a desconhecer o seu paradeiro e o que lhe havia sucedido.
     Já decorreram vários anos sobre tal graça, mas descubro então que esta classe de fauna prolifera cada vez em maior quantidade nos dias que vivemos.
     Trocam-se os clubes e as ideias políticas, sociais e até religiosas, conforme os interesses imediatos mais vantajosos. A pele aparecerá com a cor que melhor convier. O que agora é verdade, volvidos poucos momentos, poderá passar a mentira. O sistema dito como válido deixará, em breve espaço, de constituir o caminho certo e os mesmos protagonistas afirmarão que nunca pensaram em tal.
     A afirmação da fé, propalada na véspera, desvanece-se no dia seguinte porque adivinhará estar à porta, em espera porfiada, uma nova experiência materialmente atraente e lucrativa.
      E, sempre mais, os mesmos camaleões surgem nos diversos cantos, confundidos com a paisagem, estendendo as afiadas garras a segurar e matar, por todos os modos e feitios, as vítimas indefesas que lutam pela vida e por um naco de pão que sustente e sacie a fome a si e aos de sua casa.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012


    A ALEGRIA DE SER POBRE
     Nunca entendi, ou não quis entender, a expressão bem portuguesa e popular, creio, do “pobrete, mas alegrete”. Talvez isso não produza na minha pessoa grande mossa, em virtude do berço em que me deitaram, acabara eu de nascer, ser uma caixa onde haviam jazido sardinhas para venda, embora suas tábuas depois fossem aplainadas e marteladas pelo artífice sem diploma nem arte, mas credenciado pelo carinho e amor cuidado de pai.
     Não cresci entre sedas e brocados nem fui sentado em mesa onde luzissem os talheres de prata ou dourados.
     Entrei numa Escola Primária, por caridade e favor, depois de ser “expulso” da primeira, que frequentei só durante dois dias, porque a sala de aulas estava carregada de modo a não comportar tão grande número de alunos, abrangidos nas quatro classes de então.
     Não estou, nem quero, a lamentar-me de alguma coisa. Muito pelo contrário. Dá-me uma enorme satisfação trazer à memória restos de vida por que passávamos sem garantias nem subsídios.
     Os tempos eram outros e tudo servia para estabelecer normas de vida e linhas divisórias entre os bafejados da sorte e a arraia-miúda da sociedade.
     Mas ultrapassávamos, com natural espontaneidade, a situação. Também é certo que a nossa cabecita não concebia a dimensão dessa desgraça tamanha.
     Faço regressar à recordação um episódio de dois miúdos a frequentarem a mesma sala de aulas, quando nela se fazia o favor de distribuir pequenos e frugais lanches às crianças que pareciam trazer mais carências estampadas na cara.
     Numa ocasião e, enquanto lhes foi perguntado algo sobre as suas famílias e pormenores sociais respectivos, um enumerou a existência de seis irmãos e o outro relatou não ter pai porque este havia abandonado a casa, mulher e filhos. A ambos os rapazitos entregaram um lanche porque eles mesmos tinham adquirido tal direito, reconhecido pelo estatuto de serem pobres.
      Todavia um deles não achou nisso muita piada e ficou meditabundo, enquanto o segundo correu para casa, ufano, proclamando: “Mãe, na nossa escola, somos só dois os pobres: eu e o Quinzinho”.
      No momento, para aquele garoto, tal situação equivalia a serem considerados os dois melhores da turma.
      Retomo, então agora, o início destas minhas congeminações, porque começo a perceber qualquer coisinha.
     Estamos numa contextura em que se olha para esta nossa sociedade, ou melhor, para cada um de nós, sobrecarregando-nos com o epíteto de esfarrapados, ignorantes, esfomeados, malandrões, órfãos desprezados e na bancarrota, desempregados que vivemos à sombra e sob a égide de quem queira condenar-nos ainda a mais pobreza, mas com a incumbência, por nossa parte, de apregoarmos com sonora e inocente satisfação que somos uns pobres coitados a estender a mão à comiseração fantasiada dos quantos já puseram as patorras sobre a debilitada cerviz da nossa economia de autênticos invertebrados.
    Talvez até esteja certo porque, dada a forma como muitas camadas de famílias se comportam, continuando a gastar ou a deixar que os seus mais novos o façam, como se pertencessem à classe dos governantes, não merecemos outra coisa senão o riso escarninho de quem nos reconhece como os títeres foliões que exibem nas costas o cartaz de “pobretes, mas alegretes.”