Quem sou

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Vocação: Padre - Outras ocupações: artista de ilusionismo e hipnotismo

domingo, 25 de julho de 2010

ERA UMA VEZ…ATENÇÃO ÀS “FORMIGAS”…



Confesso que não me invade qualquer sentimento hostil em relação àqueles animálculos que incomodam tantas pessoas por causa das diabruras que fazem na sua actividade mais que agitada de todos os momentos. Para quem não sabe quero referir-me às formigas. Sobre elas move-me, apenas, um desejozito de vingança pelas vezes que competiram comigo aquando da minha idade de infância. É que, no momento de eu atacar o cartucho onde minha mãe guardava o açúcar, já elas tinham provado ou, mesmo, comido parte da doçura. E eu tornava-me quase furioso ao sentir que alguma, por engano, me atingia na língua injectando um humor bem acre e mordente.

Apesar de tais contrariedades de percurso, até nós as crianças do meu tempo, nos convencíamos prestar ajuda a tais bichinhos quando traçávamos e alisávamos os carreirinhos por onde haviam de passar limitando-os com murinhos. Pensávamos nós que elas seriam incapazes de o fazerem por si sós. Era e é um rotundo engano.

Ao longo da vida fui descobrindo o poder atómico que têm as formigas. Ainda me recordo do tempo de escola quando se lia um texto apelativo sobre a “formiga rabita”, sempre num trabalho insano e persistente a fim de amealhar o sustento necessário para o dia ou épocas seguintes. Elucidativa é, na verdade, a fábula de Esopo, traduzida por La Fontaine e comicamente versejada pelo nosso Bocage, em que contrastam, cara a cara, o labor da formiga e a “cantorolice” da cigarra imprevidente, no Verão.

Bem entendemos que sendo minúsculos seres, elas são agentes fortes para o equilíbrio da natureza. E quanta força física e de “vontade” demonstram quando transportam volumes enormes de comida e outros bens necessários para o armazém da sua casinha. Razão para o elogio bíblico: “No mundo existem quatro seres que são mais sábios do que os sábios: as formigas, povo fraco, mas que recolhe comida no Verão…” (Livro dos Provérbios, 30/24). E como se ajudam em grupo organizado! E o olfacto de que são dotadas, fazendo-as descortinar os objectos do seu interesse a distâncias tão longas! E como gostam do que é bom e doce!

É assombroso descobrir os “bunkers” que constroem para a sua defesa e hibernação. Até chegarem aí, caboucaram quilómetros de sulcos sem as sofisticadas máquinas da invenção humana.

Mas teremos imaginado já o quanto minaram, moeram, removeram ou destruíram até atingirem a construção do seu “habitat”?!

Supusemos, alguma vez, que um enxame de formigas, no silencioso desenrolar do tempo, cava a ruína total de uma casa sem que ninguém se aperceba e lhe acuda?

Estas minhas observações conduzem-me a uma reflexão muito séria sobre o que hoje testemunhamos, sem prestarmos a atenção devida. Estamos a viver numa sociedade que deveria fundamentar-se nas bases seguras de um passado de valores que não poderiam ter-se deixado desmoronar com a facilidade e inconsciência gritantes que, actualmente, experimentamos.

São os próprios grupos, famílias, associações, movimentos que vão minando a educação, a estruturação das seguranças humanas, cívicas, religiosas e vitais. Não se assume a exigência consciente de joeirar o que nos entra pelos olhos e ouvidos, vindo dos mais diversos meios de comunicação e, aí, temos a sociedade a ser minada nos seus alicerces que são as crianças que ouvem e vêem todas as maluquices do actual modernismo sobre homossexualidade, morte, guerras, separações e divórcios, violência doméstica e social, desinteresse ou hostilidade familiar por tudo quanto é compromisso e responsabilização.

Sucede mesmo que essas mesmas crianças são acicatadas, incendiadas e até, conscientemente ou não, atiradas pelos próprios pais contra pessoas sobre quem eles demonstram não nutrir quaisquer simpatias ou apreço, mas que expelem gana de denegrir algum trabalho por mais sério e útil que seja.

Estas crianças crescem na vida sem um padrão de verticalidade nem tempo ou condições para discernirem entre o bem e o mal, porque os seus responsáveis não lhes ensinam o trilho correcto de uma boa conduta. São absorvidas totalmente pelas suas ocupações permanentes do ballet, patinagem, piscina, dança, explicações, desporto, sem tempo para absorver uma aprendizagem familiar dos valores que, por seu turno, se vão desintegrando e sumindo nas sombras do desinteresse e do desconhecimento.

Há que dar luta sem tréguas a esta espécie de formigas minadoras e mortíferas que se escondem no próprio seio da família. Terá de usar-se muito insecticida, porque a construção do homem vai sendo pulverizada por estes bichos venenosos que, ao princípio, parecem inofensivos mas que são o paradigma de uma sociedade futura podre e sem objectivos que ultrapassem o que é meramente material e hedonista.

Triste mundo que vai morrendo para o futuro, se é que irá existir futuro.

Manuel Armando


sábado, 5 de junho de 2010

ERA UMA VEZ…OU… PAR OU ÍMPAR?







Quero recordar uma peça de teatro popular que, em tempos idos, ajudei a pôr em cena com gente jovem sempre ansiosa por ocupar as suas folgas num convívio reparador e vivificador de amizades, enquanto se tornava útil aos demais, divertindo-os.


Desconhecia-se o autor de “Guerra aos Ímpares”, mas que era engraçada, isso sim. Descrevia a história de uma matrona maníaca, com uma série de criadas ao seu serviço que andavam sempre na linha e num constante rodopio porque ela se irritava com tudo e mais alguma coisa, sobretudo quando lhe falavam de ímpares. Daí que exigia fazer e utilizar todas as coisas sempre em duplo, desde os dois passos de cada vez, as duas cadeiras em que se sentava, levantar dois dedos para qualquer palavra ou gesto, ter os objectos domésticos, os quadros de parede, bonecos e outros “bibelôs” sempre em dobro; números pares de empregadas a quem pagava o ordenado em quantia par. Quando lia dois jornais usava dois pares de óculos…


Cada um pode agora imaginar a quantidade enorme se extravagâncias e excentricidades que esta protagonista, sempre em palco, manifestava na sua maneira de ser, tão fora do comum.


Todavia, pensando bem, reparo que o facto não será assim tão esquisito e inusitado como aparenta. De vez em quando, dou por mim a enumerar quantas coisas fazemos ou possuímos aos pares e tantas outras que desejaríamos assim acontecessem.


Examinando o exemplo da nossa compleição física, deparamos com dois olhos que se abrem para as maravilhas da luz e da natureza e se procuram fechar diante daquilo que é comprometedor e difícil ou infeliz; dois ouvidos onde entram as melodias agradáveis do mundo natural, boas palavras que enchem o coração ou por onde passam as notícias incomodativas e intranquilizantes; duas narinas que saborearão os aromas vivos das flores ou irão descobrir como este mundo caminha para a podridão e destruição; duas faces que riem ou coram, consoante os momentos. Ter duas caras é que já não será muito curial, e sucede isso em variadas ocasiões, conforme a partitura dos executantes porque se abrem dois caminhos a duas atitudes, por vezes, antagónicas entre si.


Duas mãos para gesticular, acolher e despedir, dar e receber; dois braços para trabalhar e amparar; dois pés que sustentam o corpo e o conduzem em todas as direcções úteis ou menos razoáveis.


Dentro do nosso corpo encontramos dois rins que, trabalhando bem, equilibram a saúde. Embora só um coração, mas com duas aurículas e dois ventrículos que “amam e desamam”; dois pulmões que não gostam do fumo mas, quando limpos, se enchem de ar puro para ventilar uma vida sadia.


No desenrolar da vida de sociedade, as coisas, muitas vezes assim acontecem também em duplicado.


Ora vejamos: há quem possua duas bicicletas (com duas rodas cada), ou dois carros, uma junta de bois (dois), ou duas casas. Mas ainda há quem pense duas vezes, antes de adquirir quaisquer destes bens, porque há duas maneiras ou caminhos na direcção das respectivas opções.


Em serviços de economia, por vezes, são apresentadas duas facturas a pagar por um único serviço para não se ficar só pelo original e duplicado ou químico. Mas há mesmo quem apregoe o “leve dois e pague um”, o que nem sempre corresponderá à verdade verdadeira.


Nos campos da política, da economia global e até na justiça, parece frequente haver dois critérios, dois pesos e duas medidas (uma boa e outra má), duas opções possíveis. No diálogo mais aceso, ainda se rangem os dentes com o “ora repete lá isso outra vez”…


Nalguns sectores das governações e do pensamento apresentam-se duas facções do sim e do não, na escolha ou amostragem da personalidade de aceitação.


Em duas partes distintas do jogo há que ter ”dois dedos de testa” para pensar e decidir sobre quaisquer tácticas a adoptar.


A estrutura da sociedade humana assenta no binómio da família constituída pela dupla homem e mulher, pai e mãe.


Sei que não descubro nada de novo, mas que é relevante, é.


Olhando para a Sagrada Escritura, relembro que Jesus enviou os seus discípulos, dois a dois, por todos os cantos e esquinas, anunciar coisas importantes, referentes à estruturação firme e segura de uma sociedade que terá de olhar não só a vida meramente material mas que se vire para o alto e descortine a eternidade.


Por estes pressupostos todos, e mais alguns muitos que não são lembrados, imagino quão importante e urgente se torna ler, reler, e pensar duas vezes, o livro da existência, pois o epílogo é um só e uma única será a eternidade.




Manuel Armando

domingo, 18 de abril de 2010

Palavras


PALAVRAS

Palavras foram as mantas

Que me envolveram no berço;

Acompanharam mãos santas

Onde me senti imerso,

Porque mãos de amor

E dor

De minha mãe.

Saíam do seu peito

E, ao seu jeito,

Me ensinaram

A balbuciar

E gritar

Pela bravura

Da sua ternura.

Palavras foram o desfiar

Das contas do Rosário

A rezar

E tocar

O Sacrário.

Palavra foi comunicação

E comunhão

De Deus

Com os filhos seus.

Palavra é esse Deus incarnado

No humano, cumprindo seu fado;

Ganha no homem o valor

Da verdade

Para a eternidade

Palavra é peso de alegria e Cruz
Porque Ela foi, é e será sempre Jesus.

(Lida ao microfone da RR, em 15 de Abril de 2010)          Manuel Armando



segunda-feira, 12 de abril de 2010

ERA UMA VEZ…Ou… O MISTÉRIO DAS TRANSPARÊNCIAS



Tenho sempre alguma ou, até, muita dificuldade em perceber a palavra “transparência” nos seus sentido e conceito plenos.


Como um simples e ignorante estudante que não posso nem devo nunca deixar de ser, recorri ao meu velho Dicionário de Português, companheiro mudo, mas muito sabedor e versado nestas viagens de escritas e redacções, para que não me enganasse no concernente ao significado de tal vocábulo.


E ele respondeu-me: “Transparência, qualidade do que é transparente”.


Se pouco sabia, nada fiquei a saber.


Mas, indaguei o adjectivo “transparente”. Aí li a informação: “que deixa distinguir os objectos através da sua espessura”.


Assim, fui progredindo.


Todavia, uma segunda explicação, então, já me abriu mais os meus horizontes quando traduziu: “Transparente, pedaço de tela, papel, etc, com que se afrouxa a acção da luz; estore…”


E eu a julgar que, através da transparência, se poderia mirar tudo sem peias nem cortinas; quando, afinal, há sempre algo que nos impede de ver claro, empurrando-nos para o translúcido se não para o opaco, directamente.


Demorei muitos anos a descortinar o porquê de ter conhecido um autarca que prometeu, há já longos tempos, fazer construir o edifício da sua Câmara com paredes e compartimentos em vidro transparente e, assim, todos quantos passassem ou dela necessitassem sobre alguma coisa, haveriam de alcançar tudo com verdade e em plena luz.


Desconheço se tal edificação aconteceu, sobretudo com os efeitos referidos, ainda que tenha visitado já essa cidade, em serviço e, vezes sem conta. Valha a verdade que, até hoje, ainda não me informei sobre a sua localização.


Pelo meu lado, também me deixo conquistar por uma nesguinha de santa irritação quando caminho ao lado daqueles mastodontes que se alicerçam e suportam em fortes pilares, realmente com as paredes todas em vidro, sim, mas a servir de espelho para quem está de fora e a deixar que os de dentro possam distrair-se ou alhear-se do trabalho, fazendo muitas pausas para observar, divertidos, as cenas das pessoas que circulam, no exterior, de lado para lado, numa azáfama constante em busca da vida de si tão complicada e movediça.

Ora, continuamos todos a ver quase nada e a sentir muito, sem podermos apontar novos rumos de correcção para o que está errado. A nossa colaboração poderá ser, pois, escusada.


Apesar daquilo tudo quanto é negativo e frustrante, eu gostava de idealizar uma sociedade diferente e totalmente aberta.


Para isso, deixem que alvitre e expresse um pensamento estouvado, mas sincero. Vamos imaginar que todas as habitações da nossa sociedade vão ser destruídas nuns segundos, para se reconstruírem e remodelarem em breves dias, semanas, meses ou anos. Essas novas construções serão, mesmo, elaboradas em vidro, sem quaisquer filtros, nas suas paredes externas e nas interiores. Quero aconselhar, apenas, um compartimento fechado que sirva as actividades mais íntimas de alguém em singular ou para exigências, particularmente, familiares.


O que iremos desvendar, através disso?


Casais desavindos e em discussões contínuas; agressões entre marido e esposa, entre pais e filhos ou vice-versa; comentários desabonatórios sobre tudo e todos; fome e abundância, estrago do supérfluo e aproveitamento das aparas desperdiçadas nos caixotes do lixo; choros de crianças carentes de afectividade e pão e desespero dos mais adultos; pedofilia bárbara e incestos continuados; sujidade, promiscuidade e opulência; raivas, ódios e revoltas; paciência e boas intenções; distribuição de tarefas ou, em contraste, despotismo sobre os mais desfavorecidos por causa da idade ou saúde; idosos postos num canto sem poderem dialogar com os demais; lumes apagados a tresandar a gelo afectivo; mesas vazias porque os filhos já não compartilham as refeições com os pais; e tudo quanto mais nós todos pudermos e quisermos imaginar.


Se, ainda, procurarmos alongar o olhar para sedes de associações ou partidos políticos, agremiações, instituições, mesmo ditas de bem-fazer ou desportivas, igrejas e hospitais, descobriremos cotão aos montes, a solicitar uma varridela e remodelações imediatas.


E se, porventura, passássemos aos hemiciclos da governação e aos seus passos perdidos, quanto toparíamos de crueldade, injúria, injustiça, egoísmo, desprezo pela vida e pelos direitos, esquecimento dos deveres e promessas, muitos discursos distorcidos e enfatizados, todavia, vazios. Tudo afirmado e feito em nome da transparência mas estendendo sempre o tal pedaço de tela que dificulta o bom entendimento.


Falas inflamadas dos grandes e fáceis oradores, parecendo traduzir a clareza de todas as coisas e empreendimentos, mas assentes em autênticas muralhas intransponíveis de cambalachos e negociatas, no mínimo, duvidosas, com largos buracos onde se afundam submarinos e denunciam faces ocultas.


Vamos continuar a fantasiar que tudo se encontra em franca claridade. Mas convenhamos que, nesta sociedade, as paredes aparecem-nos como medonhos muros compactos a evitarem alguma coisa que possa ser observada facilmente.


Portanto, deduzimos e concluímos que isso de transparência é uma balela, porquanto só os telhados são de vidro.

quarta-feira, 24 de março de 2010

PÁSCOA

Padre Manuel Armando
Se o grão de trigo lançado à terra não morrer, não produzirá vida.


Se a água correr, mansa, pelo leito do rio, não cria energia; mas se entra em luta no turbilhão da barragem, produz luz que ilumina um mundo infindo de homens.


Eu vim, ó Pai, para fazer a Tua vontade. O meu reino não é deste mundo. Todo o homem é atraído para fora deste mundo. É o convite cristológico à conversão. Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.


A morte dará origem à vida, ou será absorvida pela vida…


Á morte seguem-se as trevas e a noite. Mas a manhã trará a alegria, a luz, a frescura, a vida renascente, a vontade de ver o Sol, o gorjeio da natureza em festa de lés a lés.


É passagem da noite para o dia, da desgraça para a felicidade, da morbidez para o entusiasmo, da injustiça para o respeito dos direitos e deveres de cada um, do desespero para a certeza do bem-estar, do egoísmo para o sentimento da comunidade.


Faz-se dia e luz. É a vida que fervilha e cria novas vidas, é esforço que dissipa e vence todas as trevas… da incredulidade, das ganâncias de poderes balofos, dos roubos e assassínios, das calamidades e aberrações da sensualidade e erotismo, das desigualdades e contradições.


É Páscoa; é mistério de túmulo vazio. É Cristo outrora, hoje e sempre, ressuscitado. É promessa realizada. É Deus que não mente ao homem mentiroso, mesquinho e avarento.


É a vitória desse Deus a quem vaticinaram a morte eterna.


A luz venceu. “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não anda nas trevas”. Foi Cristo quem o afirmou, sem temor e sem vergonha.


Os Apóstolos procuraram o Seu Jesus mas… “porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou”.


Maria Madalena perguntou ao suposto hortelão (Jesus disfarçado): “Se foste tu que O tiraste, diz-me onde O puseste que eu vou lá buscá-Lo”.


Páscoa da Ressurreição continuará a ser a permanente procura de um Deus que Se deixa agarrar pelo homem sequioso e faminto, mas verdadeiro no seu interior.


O grão morreu, mas produziu vida abundante.


Cristo foi crucificado e morto, mas quer, agora, estar na Sua Páscoa eterna de ressuscitado em cada um de nós.


Aleluia! Alegremo-nos. Aleluia!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

ERA UMA VEZ…OU… A VIDA COR-DE-ROSA

Promove-se e apregoa-se, aos quatro ventos, aquilo que alguém apelida de imprensa “cor-de-rosa”. Ela é uma tonalidade um tanto hermafrodita que serve, quase exclusivamente, para esconder grandes problemas humanos, sociais e individuais.


Através desta escrita espevitam-se, enormemente, a curiosidade e a morbidez de quantos, também, procuram escamotear as suas carências culturais ou incapacidade de vontade em ordem ao acompanhamento sociológico e incremento das faculdades de inteligência pessoal. Parece, assim, uma alienação perigosa da vida real e o afastamento de uma seriedade da qual a actuação particular deveria exornar-se para um adequado desenvolvimento comunitário.


Nos escaparates das papelarias e quiosques enxameiam as mais diversificadas publicações, avidamente procuradas por um público de craveira intelectual a roçar o medíocre, que se digladiam mutuamente numa luta fortíssima, e quase cega, em busca de vendas e lucros ou hipóteses de sobrevivência, apenas.


Assim, por este veículo, as pessoas e os seus nomes bailam de boca em boca, tornando-se paradigmas de atitudes e estados de vida socializada. Figuras, ditas proeminentes, dos vários sectores, camadas e extractos de grupos da política, da arte e outros são, embora frequentemente ridicularizados, tornados regra e espelho de conduta para o “modus vivendi” dos nossos dias. As suas atitudes e usos são extirpados na praça pública pelo julgamento fácil e ironia desbocada.


Apesar de um tal perigo ser eminente, o caminhar de muitas famílias, de jovens e adultos é pautado por tudo quanto se lê ou imagina sobre determinadas personalidades trazidas, deste modo, para a ribalta diária. A vanidade de diversas existências passará a ser o estereótipo de uma sociedade que se vai construindo sem alicerces e sem elos de ligação nem leves nem profundos, ou melhor dizendo, nenhuns.


As relações humanas, que deveriam ser criadas e desenvolvidas na base da empatia recíproca dos indivíduos, traduzem-se numa ligeireza entediante e angustiosa.


As cores berrantes, contrastantes entre si, os brocados e as cambiantes das vestimentas ou adornos brilham, irradiam ou reflectem os raios luminosos dos candelabros, nos grandes salões, ou sob os holofotes dos estúdios televisivos e, frequentes vezes, escondem verdades e impedem os olhos de conhecerem o esconderijo da miséria que assola e ameaça fazer vacilar os fundamentos de uma edificação humana insegura.


E o pior de tudo isto é que um mundo que devia transformar-se para melhor, começa a mostrar frutos de destruição dos valores e dos indivíduos. É, portanto, uma existência que desliza, aceleradamente, para a derrocada completa, porque erigida em estacaria já apodrecida e exangue.


Incorremos numa ilusão tremenda quando reparamos como programas, plenários, encontros e debates se ocupam, nos locais e horários nobres, das coisas que, consigo, não acarretam sentido nem importância e, até deixam muitos, revoltados ou partidos na sua verticalidade, pois acabam por entender que as grandes dificuldades e problemas são omitidos e não se afloram para se evitarem empenhamentos ou inquietações de consciência. Parece que gravitar-se na panaceia é mais cómodo.


Há situações e factos que não merecem qualquer atenção, nem para má-língua.


Os mexericos são frutos envenenados, porque enraizados numa vida vã, e produtores, ainda, de actuações frívolas e efémeras que, nada trazem de positivo ou contribuem em direcção ao bem estar das gentes, num futuro próximo, o qual se deseja mais risonho e diferente daquele que, hoje, experimentamos.
P. Manuel Armando

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

ERA UMA VEZ…Ou vamos ter festa rija.

Não será fácil prescindir de determinadas convicções, tenham as raízes que tiverem, pois elas marcam-nos pessoalmente e, também, pesam sobre as sociedades que se vão sucedendo ininterruptamente. E, nas diversas gerações, apesar de todas as vicissitudes, há valores que o são em si mesmos e, por isso, imutáveis. Digam o que disserem, aduzam as provas que queiram, mas aquilo que é a essência das coisas jamais poderá ser objecto de quaisquer transmutações.


As leis humanas, por muito elaboradas que se apresentem ou se baseiem nos argumentos mais complicados, serão sempre injustas, se aparecem com o fim de sancionarem comportamentos experimentados e não para orientarem vidas e relacionamentos interpessoais numa sociedade organizada e pacífica. E chamem-nos anquilosados, antiquados ou “botas de elástico” que, pouco ou nada, importará, até porque muitos tratados antropológicos, que vão sendo dados à estampa, nos fornecem segurança suficiente para a conservação dos referidos convencimentos sobre a vida relacionada material e espiritualmente.


Já agora, e ninguém me deve levar a mal, ainda que possa alguém discordar, quero trazer à consideração reflexiva alguns textos da Sagrada Escritura que, não sendo tratados de ciência, despoletam, todavia, discussões e comentários em todas as latitudes, no tempo e no espaço. Nuns fomentam e aprofundam acções de fé; noutros, dúvidas e, ainda, sectarismos ou negações. Nisto tudo se adquire a riqueza que engrandece o intelecto humano e a humanidade no seu todo.


Mas, vamos aos escritos. Iniciamos com o Livro do Génesis, logo nos seus primeiros parágrafos. “Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”.

Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e criou-os homem e mulher.


Deus abençoou-os e disse-lhes: “sede fecundos, multiplicai-vos…” (Gen.1/26-28)


O homem deu um nome a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras. Mas o homem não encontrou uma auxiliar que lhe fosse semelhante.


O Senhor Deus fez cair um torpor sobre o homem e ele adormeceu. Tomou, então, uma costela do homem e no seu lugar fez crescer carne.


Depois, da costela que tinha tirado do homem, o Senhor Deus modelou uma mulher, e apresentou-a ao homem. Então, o homem exclamou: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!”


Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe, e une-se à sua mulher, e os dois tornam-se uma só carne.” (Gen. 2/20-24)


Mais tarde, disse o Apóstolo Paulo: “Ninguém odeia a sua própria carne; pelo contrário, nutre e cuida dela, como Cristo faz com a Igreja, porque somos membros do seu corpo. Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e os dois serão uma só carne. Este mistério é grande.” (1Cor. 5/29-32)


Lembro-me, a propósito, que, aquando do dilúvio, Deus terá dito a Noé que metesse na Arca um casal de cada espécie. “Toma um casal de cada ser vivo, isto é, macho e fêmea, e coloca-os na Arca, para que conservem a vida juntamente contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada espécie de todos os répteis da Terra; toma contigo um casal, para os conservar vivos.” (Gen. 6/19-20)


Podem ser longas estas citações mas, mediante o percurso dos acontecimentos deste nosso mundo actual, apresentam-se-me necessários para admitir que, neste momento, se desenrola uma série de aberrações

morais e humanas as quais incomodarão quem é dotado de bom senso e capaz de se aceitar como homem chamado a colaborar, correctamente, na obra sublime da criação.


Os modos de casamento vão-se diferenciando consoante os critérios de meio social e de crenças religiosas. Mas, pelo menos, subentende-se ou entende-se como casal um homem e uma mulher, um macho e uma fêmea e não um mais um, ou uma mais uma.


O país “orgulhou-se” por um “dia histórico”, ridicularizando-se com “uma democracia,” na qual não se aceitam ideias diferentes nem há respeito por elas, quando existem.


Diante de tudo quanto vai acontecendo, e atendendo até, que, neste momento, diminuíram os casamentos, ditos normais, torno público o meu empenhamento no sentido de um pedido a quem de direito para que me seja permitido presidir, oficiar e abençoar o enlace do meu cão que, desde há muito, anda de namoro com uma cadela, residente, aqui, no mesmo burgo. É que este plebeu canino, como os outros animais, respeita e compreende, pela sua própria índole, os valores e as leis naturais da sexualidade e da procriação.


A resposta ao referido requisito será, certamente, positiva. Assim o quero acreditar. E, por tal, no dia aprazado para o acontecimento, vai haver festa rija. Para paraninfar o acto inusual, convidarei o Primeiro Ministro e outros Ministros da nossa praça. O grupo coral presente e actuante será constituído pelos elementos dos vários partidos de esquerda e não só. Aqueles que ficaram sem quaisquer capacidades de contraposição formarão o grupo dos que, lançados na lama, apanharão as amêndoas lançadas “à rampainha”, como se dizia e acontecia no meu tempo de criança que, sem mimos doces, ia com os outros colegas para a porta da Igreja na mira de conseguir, pelo menos, uma.


O menu para o banquete está organizado já, de modo que ninguém passe por alguma carência ou vergonha. Abrir-se-á com os aperitivos de Paté, rico em carne de vaca, seguindo-se, de imediato, uma sopa a condizer. Continuará o desfile de pratos variados consoante a idade, situação física e necessidade de cada qual, a saber: “Bribon supreme”, para os mais adultos; “Nutriplus”, com vitaminas; “Chuchos”, com orelha de porco; “Purina one”, rico em borrego e arroz; “Pedigree”, com coelho e cordeiro ou galinha; “Friskies”, rico em cálcio para os dentes e ossos; “Biosch”, com tomate, para cães mais adultos; “Ossinhos Secos”, adequados a dentes mais rijos; “Snacks”, light, por causa da elegância; “Royal Canin” e “Pró-Plain” (biscuits).


Tudo isto será acompanhado, é claro, com água, para não haver problemas na condução.


Terminar-se-á com “Friskies Dental Fresh”, para que todos os “cãomensais” possam exibir um hálito fresco e dentes sorridentes.


Ora, para estes animais e outros seres que superam o entendimento e o proceder de muitos humanos, uma festa rija, assim, não é para perder-se.

P. Manuel Armando