Quem sou

Quem sou
Vocação: Padre - Outras ocupações: artista de ilusionismo e hipnotismo

sexta-feira, 23 de agosto de 2013


 

SÓ TU, Ó MAR

 

Por que te chamam azul, ó mar agreste?

Na tua lonjura 

Os nossos olhos atingem o verde-cipreste 

Na largueza das águas  

Que, até nós, vêm chorando mágoas 

De aventura.

 

Em ti mergulham ou vogam gaivotas. 

Lá, distantes, barcos seguem suas rotas 

Com pressa de empurrar o pôr-do-sol. 

Ele foi a força benfazeja da vida 

Que, à alma triste e ferida, 

Veio dar sentido de novo arrebol.

 

E sua luz, em prolongada despedida, 

Espraia-se, agora, pela imensidão 

Das tuas ondas buliçosas 

Que trazem, na crista, as rosas 

De alento para a ilusão 

Perdida.

 

Ó mar, no teu vaivém 

Enrolas coragens e medos 

E, para apagar segredos, 

Só tu e mais ninguém.

 

          (Verão de 2013)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013


 
    IDEAIS DE IDEIAS
 
    Muitas vezes eu tenho ouvido dizer que o mundo se equilibra pela multiplicidade de ideias diferentes, dumas e doutras pessoas. Contudo, ainda não descobri, ao certo, se tal asserção é assim uma verdade insofismável. Para mim parece não o ser, porque observo as desavenças constantes como fruto dos modos de ver diversos. Cada indivíduo se põe em bicos de pés para defender a maneira peculiar de entender os assuntos, não aceitando que a sua verdade seja de menos qualidade ou importância do que a do antagonista.
    Daí à discussão e altercação é um ápice. E tudo pode redundar em guerra interminável que não traz benefícios de espécie alguma para ninguém.
    Mesmo assim, deverá admitir-se a capacidade para o mínimo consenso se os contendores baixarem, cada um, a sua voz, confrontando mutuamente vias de acção, no propósito de se encontrarem a meio e aproveitar o que há de positivo e útil em ambas as partes.
    É evidente que, aqui, se subentende uma dose de humildade, responsabilidade e bom senso.
    Difícil este caminho? Possível se, porventura, um por um, procurar construir a sua personalidade na certeza e consciência de não saber tanto que não possa aprender mais dos outros, nem ser tão pobre que não consiga partilhar algo de si com o seu opositor.
    Uma boa gerência de governação surgirá dessa conjugação de pareceres, sempre enriquecidos pela cultura e reconhecimento por algum sentido de insuficiência ou pequenez pessoal.
    Todavia, em todos os dias, se assiste ao espraiarem-se tons e modos de conduta apresentados, supostamente, como os mais válidos e necessários na orientação de associações, agremiações e clubes.
    Aqui, estou mesmo a cismar sobre um dado sociológico curioso. Nunca, em parte nenhuma, alguém estará confortável com os meios e modos de conduzir-se a política. Deveria ser uma procura séria e adequada da boa saúde para a cidade, sociedade humana.
    Mas, como tal parece não acontecer, surgem sempre os comentadores de tudo e de nada, “diplomados” contratados pelos diversos meios de comunicação a parlengarem sobre todos os assuntos onde existirão possíveis erros atinentes, apontando caminhos seguros (na sua imaginação, claro), para a solução do bem-estar das comunidades. E, mesmo entre estes, há uma discrepância de idealismos o que acarreta, desde logo, a desilusão ou desconfiança quanto a melhores dias.
    Estou, neste momento, a pensar em opinar a escolha de todos esses comentadores, críticos de quaisquer sistemas e leis, porque imersos numa “sabedoria inegável”, para ocuparem os lugares de governo da nação, mesmo sem se sujeitarem a quaisquer sufrágios populares. Por que não?
    Apesar de tudo, uma dúvida e um receio agora me assaltam, pois fico a recordar-me dum facto da minha meninice.
    Havia, lá na aldeia onde nasci e cresci, um operário metalúrgico que, só porque lia, algumas vezes, o Jornal desportivo, foi oficial e unanimemente, pelo populacho, considerado e escolhido como técnico treinador do clube de futebol da terra.
    E o resultado?…
    Só, no final de cada prélio realizado, se dava conta das desilusões, por semelhante e desastrosa opção tomada.

 

 

    LIBERDADE, NA DEMOCRACIA

 

    Ainda não entendo, hoje, o que será isso de democracia, mesmo passados tantos momentos altos, durante os quais muitos vultos da máquina governativa, sindical, empresarial, judicial e quejandos a pregam, aos quatro ventos.

    Todos fazem dela a base cimentada dos seus discursos e escritos. Todavia, eu devo ser casca-grossa para não perceber, por mais que me esforce, semelhante conceito. Certamente por ser uma pessoa mais prática que teórica. Comportar-me-ei tal qual uma criança quando procura conhecer o seu brinquedo, fazendo-o de forma positivista, ao desmanchá-lo inteiramente nas suas peças, até às mais diminutas, ainda que depois não seja capaz de encaixar tudo no seu devido sítio. Mas, pelo menos, desfazendo, aprendeu como tudo era por dentro.

    Não consigo desmontar o conceito das peças democráticas pois também não se deixam manusear com facilidade.

    Assim desconheço se democracia significa mandarem todos e ninguém obedecer, pagarem alguns para outros, alguns, gozarem os dias da vida sem dores de cabeça; se democracia é mandar um sobre o resto da comunidade ou ainda desobedecerem todos a alguém que não manda nem governa.

    Estes e demais caminhos entrelaçaram-se numa barafunda completa por tal ideia ter sido confundida com o exercício da liberdade quando esta, em contra-partida, deflagrou como libertinagem em todos os quadrantes da actuação humana, agitada nas mentes impreparadas e completamente desconhecedoras do que sucedia, antes.

    Sou do tempo da liberdade na sua amplitude autêntica que sabia delimitar o espaço pessoal próprio, em relação à propriedade e direito do outro indivíduo.

    Nasci na época da verdadeira democracia, iniciada e experimentada no seio familiar, onde tudo era organizado, hierarquizado e respeitado de modo que, quando soasse o assobio do pai de família, disparado na parada, isso bastaria para todos voltarem aos seus lugares a retomarem as respectivas e pessoais funções na caserna onde crepitava o fogo do amor e cooperação animada e na boa ordem em tudo.

    Nesse tempo, estava subjacente a todas as acções, familiares e comunitárias, um laivo de teocracia.

    Hoje, porém, as coisas e as pessoas desvirtuam-se na promoção da democracia que se vai tornando demonocracia, ou antes, demoniocracia numa abundância de deformações, bases das invectivas de homem contra homem, ambos faiscando lume de raiva, ganância e desrespeito recíproco, com agressões sem limites.

    Significará que, no desenrolar do tempo, tudo se vai agudizando porquanto a barbárie dos nossos dias poderá parecer regredir-se, de modo inapelável, ao modo de viver dos trogloditas ou a uma sociedade sem regras em que não há ninguém a obedecer porque, aliás, não haverá alguém capaz de saber orientar.

    Em suma, vai chegar o regabofe total.

    Então sim, iremos todos perceber o que seja a democracia, experimentada na liberdade, ou a liberdade conspurcada pela democracia.

 

                                                                               

domingo, 14 de julho de 2013


      ”SANTAS ELEIÇÕÕES, ROGAAI POR NÓÓS”
   Lembro aquelas manhãs de Maio quando, ainda muito pequenito, era acordado, pela madrugada, para ir engrossar o grupo, bastante numeroso, na reza das “Ladainhas”.

    Ainda com os olhos ensonados, eu nada dizia mas escutava, sem perceber coisíssima nenhuma, a invocação dos vários Santos e Santas da Corte Celestial, em favor de boas e abundantes colheitas. Percebi este porquê disso, mais tarde.

    Nessa altura, íamos percorrendo, desde o centro da aldeia, os outros povoados e lugarejos, na distância de alguns largos quilómetros, durante todos os dias daquela semana determinada. A hora era duma formidável frescura e pureza, por entre os verdes campos que acordavam para mais um dia lindo.

    O velho Prior, solenemente vestido com a capa de asperges, lá ia levantando os nomes dos tais servos e servas de Deus, constantes da lista, num latim naturalmente correcto porque era o idioma da Liturgia, enquanto a assembleia do povo respondia num latinório macarrónico, quase ininteligível: “Oráá pru nóbes”. (Nós, as crianças, com a maior das canduras, no modo de crer e porque era a nossa maneira de entender, juntávamos as nossas vozitas e fazíamos coro, cantando em resposta à tal litania: “farraapos noovos”). Era o que soava aos nossos ouvidos infantis e, no meio da zoada geral, ninguém dava pela nossa confusão.

    Formulavam-se, assim, uns pedidos singelos e sinceros do povo que vivia o seu trabalho, na agricultura de sobrevivência, regado com a fé e esperança de colheitas abençoadas e abundantes.

    O interessante a retermos era o facto de que, alguns dias depois, a bendita chuva desejada fazia a sua aparição, fertilizando os campos semeados.

    Claro que tudo isto ia acontecendo numa das épocas chuvosas do tempo. Mas alicerçava-se, mais fundo, a convicção de que o Criador esperava a insistência das preces para beneficiar ou respeitar os pedidos.

    Os tempos sucedem-se, anos sobre anos, e os usos populares vão dando lugar a trabalhos e entretimentos diversos, quiçá, mais saborosos e atraentes, se não forem mais duros, para grandes e pequenos.

    Hoje já não acontecem as procissões das “Rogações”. Foram substituídas pelas greves e marchas de protesto frequentes. Agora não se roga, mas imprecam-se blasfémias e esconjuros que pouco ou nada valem nem dignificam a pacatez popular.

    Presentemente impõem-se eleições, antecipadas ou em tempo devido.

    Então aqui, sim. Parece merecer a pena pois, quando essas eleições se aproximam, algumas das exigências e pedidos serão normalmente atendidos. Tapam-se buracos e alcatroam-se estradas e caminhos degradados e fazem-se calçadas, aparecem inaugurações retardadas, conseguem-se mais alguns subsídios, há muito prometidos, até para as culturas agrícolas. Constroem-se baloiços para as crianças e, aí, também os adultos se divertem, algumas obras são terminadas ou olhadas com algum outro cuidado suplementar, e mais e mais.

    Razão, sobremaneira, sobeja para continuarmos esperançados e a cantar, mesmo num Português desusado: “Santas eleiçõões, rogaai por nóós”.

 

                                                                              


   SE O MUNDO ENGANA, DEUS ATRAI

 

    Notícias bombásticas deram conta do facto de, na Holanda, os edifícios das Igrejas estarem a transformar-se em espaços de museus, galerias de arte e outras actividades, melindrando assim as sensibilidades pela tão grande discrepância entre a sua finalidade inicial, - casa de comunidade crente e orante - e a proposta destes últimos tempos.

    Recordo, aqui e a esse propósito, uma história que, muito bem, pode ser ou vir a tornar-se verdadeira.

    O cura da aldeia, nesta convulsão de mentalidades e práticas menos religiosas ou cristãs, foi experimentando uma dispersão na deserção progressiva dos fiéis, quanto à prática dominical e outros exercícios litúrgicos. Nos derradeiros anos, ainda algumas pessoas mais idosas se abeiravam dos sacramentos, bem como muitas crianças frequentavam a Catequese. Mas, também estas, no seu crescimento, foram desaparecendo e dando lugar à opção pelo desporto e afins. Por sua vez, os mais idosos foram-se sumindo, uns atrás outros, pela lei inexorável da morte.

    O pobre prior começou a considerar-se peça de adorno e uma mera espécie de cangalheiro. Nem os vivos, que em ar de snobismo, acompanhavam os funerais, entravam na Igreja para as cerimónias fúnebres. Limitavam-se a pôr em dia a conversa com os amigos, no adro, alheando-se completamente da obra de misericórdia a aconselhar o sepultamento dos mortos com oração e reflexão.

    A igreja, edifício, ficou literalmente às moscas porque a Igreja, pessoas, viva, também havia morrido já. Nem os festejos da aldeia em honra dos patronos serviam, como nos anos atrás, para reunirem os fregueses.

    Passaram-se dias a fio, meses e mais longas temporadas.

    O padre ainda esteve tentado em propor a venda do edifício para quaisquer outros fins, mas sentiu necessidade, ele mesmo, de levar vida mais litúrgica e piedosa. Lembrou-se, então, que, naquelas circunstâncias e sem oposição de ninguém, teria tempo para a celebração de Missa, longe do dever consultar relógios nem preocupar-se com os afazeres dos demais fiéis.

    Decidiu, por isso, naquele Domingo, entreabrir as portas do templo. Preparou tudo para a grande solenidade. Paramentou-se com as alfaias mais ricas. Entrou sozinho no Santuário, iniciou a celebração, deu respostas à sua liturgia, rezou em voz alta, fez longos momentos de silêncio, meditou durante muitos minutos a Palavra de Deus, cantou com entusiasmo os seus louvores a Deus, consagrou o pão e o vinho, passou a “ver” e adorar o Corpo e o Sangue de Jesus, entregue e derramado pelos homens que O iam abandonando, esquecidos da felicidade da Salvação. Deu acção de graças como nunca, entrou em êxtase e até, santamente, adormeceu. Quando acordou estava noutro Céu e noutro mundo. Nem a falta das refeições o incomodou. Sentiu-se em plena paz.

    Aproximou-se a noite. Dia cheio de felicidade no encontro da Fé. Foi celebrante e fiel assistente, foi presidente da assembleia e acólito, deu e recebeu a bênção, acolheu-se e despediu a si próprio.  

    Continuou este peculiar modo de estar e viver no Domingo seguinte, no outro e mais no outro, por aí adiante. Triste, mas sentia-se confortado pela fé que ia tomando, então, outros contornos.

    Por curiosidade, uma criança, num desses instantes, ouviu o cantar de um homem só, abriu devagarinho a porta, entrou na Igreja sem que padre desse por isso. Não percebeu nada de quanto se desenrolava, mas ficou curiosa. Noutro dia voltou com a avó, depois chamou a mãe e o pai e por aí fora. O sucedido correu a aldeia, de lés a lés.

    Ao fim de alguns Domingos, sempre com o mesmo ritual, o fundo da Igreja foi-se povoando com mirones.

    Agora, o resto, podemos imaginá-lo.

    A necessidade de Deus revisitou e revitalizou os corações das pessoas. Nunca mais alguém pensou em alienar o edifício.

    Readquiriu-se a esperança de que os homens hão-de ver que o mundo, com todos os seus prazeres e atractivos, não responde aos anseios humanos, mas a Palavra, a Graça e o Amor, experimentados em Deus, apontarão o único Caminho de Verdade, Luz e Vida.  

 

quinta-feira, 18 de abril de 2013


 

 

 

    O “PORREIRISMO”

 

    Nos tempos que correm, sucedem-se episódios na vida das pessoas que parecem acompanhar as necessidades sociais, como também, o depravar-se tudo quanto é valor do antigamente.

    A crise, instalada contra a vontade e sem a colaboração do cidadão comum, poderá ser uma das causas motoras dos incidentes a que esta sociedade quer estar anexa. Há a impressão de nada se conseguir que não tenha, por trás de si, uma carga sociológica da tão propalada “cunha”. Ela passou, frequentemente, a ser o maior agente empregador nacional.

    Quem fala sobre tal pecha a ocupar os espaços, por vezes, de uma forma errada por ausência de capacidades e aptidões ou, como se diz resumidamente, idoneidade, pode referir também todos os sectores onde a vida humana se desenvolve diariamente. Torna-se quase obrigatório que o favorzinho seja feito, mesmo escamoteando-se quaisquer itens daquela norma ou lei que deve reger o bom senso de uma sociedade organizada e, mutuamente, respeitadora.

    Vou-me lembrando das queixas, muitas vezes, trazidas à tona pelas pessoas que, em concursos para determinados postos de trabalho, não vêem respeitados os seus valores adquiridos. Embora a classificação nos mesmos tenha sido superior para alguém, pode acontecer-lhe, todavia, ser preterido por outrem, portador de uma fisionomia mais simpática e atraente ou arrastando consigo alguma benesse para o agente empregador o qual arranja sempre um álibi explicativo relativamente ao seu desvio. A partir daí, e quando assim acontece, nada mais ou pouco pode fazer-se.

    É frequente a tentação de peitar-se alguém para obter o tal favor, pensado necessário em determinadas circunstâncias ocasionais.

    Quando o indivíduo abordado fecha os olhos da consciência, já de si embotada, torna-se patente o grau de desigualdade e injustiça criado, sobre o que não haverá um controle possível pois todos os outros, seus pares, adquirem um direito de reclamar tratamentos iguais.

    Poderão suceder tais acidentes nas entidades tanto empresariais, como governativas e também eclesiais.

   Até, aqui, não raro, se confundem os conceitos de consciência moral, religião e imoralidade.

    Significa isto, a Igreja ser de origem divina, mas construída sobre homens que formam uma sociedade normal e, obrigatoriamente, conduzida com regras, supostamente pensadas e baseadas nas atitudes de humildade e fé.

    Frequentemente serão, mesmo, aqueles que, não tendo qualquer prática religiosa, procuram subornar quem é responsável pela correcta condução de comunidades na área da prática doutrinal.

    Se esses, por infelicidade de vistas grossas, conseguem os seus objectivos imediatos, logo acham que o “palerma peitado” é um “gajo porreiro”. Todos os outros passarão para o rol dos antiquados e atrasos de vida pois não deixam que as coisas andem para a frente, sendo mesmo considerados como causa principal de muitos abandonos, na grei do Senhor.

    Entretanto, tais pessoas não abandonam coisa nenhuma porque já nada tinham nem eram.

    Pessoalmente, eu não quero ser simpático e, tão-pouco, “porreiro” por ainda ter a noção de que o dinheiro e os favores se apresentam como alienantes dos valores positivos e podem dificultar, irremediavelmente, o bem-estar comum.

    O “porreirismo”, (enquanto corrente psico-filosófica dos banais), e a mentira não estarão muito longe, entre si.

 

                                                                           

                                                                                        

terça-feira, 9 de abril de 2013


           ALELUIA! CRISTO VOLTOU À VIDA

          Era ainda muito cedo,

              Ou alta madrugada.

              Umas mulheres, ameaçadas pelo medo,

              Romperam, em grande segredo,

              Aquelas horas escuras. 

              Com surpresa, carinho e compaixão

              Viram a pedra do túmulo retirada, 

              E isso as fez testemunhas seguras  

              Da Ressurreição.

 
              O sepulcro, de verdade, estava vazio. 

              Era um momento, deveras, sério 

              E indescritível o mistério. 

              Assim é para todos quantos, em desvario, 

              Buscam, na materialidade do conforto, 

              Como seu, um deus morto.

 
              Num primeiro impulso de ardor,

              Sem saber bem como fazer, 

              Põem-se a correr 

              Porque a reaparição do Senhor 

              Ninguém pode nem deve desconhecer.

 
             Foi-se a noite e raiou novo dia. 

              O Jesus está ressuscitado, 

              A Vida cantou vitória, 

              Na Graça se afogou o pecado,

              O Homem foi resgatado 

              E poderá entrar na alegria 

              Da Glória.

 
                 Um jardim, povoado de espinhos e cardos, 

              Albergou, no silêncio das suas entranhas, 

             Aquele que carregou em Si os fardos 

              Das acções vãs e tacanhas 

              De quem, chamado para amar, 

              Preferiu simular

              De bem-querer suas sanhas.

 
                A Boa-Nova voou como o vento, 

              Transformou corações endurecidos e duvidosos  

              E muitos correram, ansiosos, 

              A testemunhar o acontecimento. 

              Tudo quanto restava de Quem morreu na Cruz,

              No alto do Calvário, 

              Eram apenas as ligaduras e o Sudário, 

              Como autênticos fachos de Luz, 

              A iluminar todos os que, de séria vontade, 

              Procuram possuir a Verdade.

 
              Não mais procuraremos, junto dos mortos, 

              Aquele que está, vivo, entre nós 

              E, ouvindo, agora, Sua voz, 

              Elevamos até Ele nossos olhos absortos  

              Para cantarmos a grandeza da Salvação

              Que nos deu pela Ressurreição.

 
               Aleluia! Cristo voltou à vida, 

              O mundo mudou 

              Porque Ele venceu a morte, 

              Apontando outro norte 

              Ao Homem a quem deu guarida  

              E, desde sempre, amou.

 
          (Domingo de Páscoa, Ano C – Jo.20,1-9, ou Lc.24, 1-12)