Quem sou

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Vocação: Padre - Outras ocupações: artista de ilusionismo e hipnotismo

quarta-feira, 4 de maio de 2011

MEU SENHOR E MEU DEUS

              Uma nova luz se abriu para iluminar
              Os caminhos terrenos de quedas e pecados.
              A morte foi vencida porque ressuscitou o Senhor
              E Sua vida nova a todos veio mostrar
              Como seriam perdoados
              Os homens que se abraçassem no amor.

              A semente lançada na terra dura
              Dos simples e humildes pescadores
              Abria-lhes a grandeza da sua missão futura,
              Como cordeiros, entre lobos vorazes e traidores.

              Ele, o Senhor, está sempre na hora mais medonha,
              Ao lado do seu fiel seguidor,
              Para anunciar a felicidade de quem sonha
              Com uma vida nova de paz e amor.

              Tolhidos pela incapacidade e incerteza
              De quem aspirou, outrora, pelos bens da matéria,
              Transformados, então, e qual brasa acesa,
              Incendeiam o mundo de miséria,
              Anunciando Jesus ressuscitado, na sua realeza.

              A fé humilde e consciente
              Alicerça a firmeza da nossa mente,
              Converte e abre as portas do coração,
              Aceita, sem peias, o Senhor na ressurreição;
              Ilumina, aquece e, logo bem cedo,
              Leva-nos a vencer a pequenez do nosso medo.

              “Meu Senhor e meu Deus!”
              Com o Teu Espírito consolador
              Lutarei contra a ignorância e a dor;
              Sou uma gota de água no oceano imenso
              Mas, pelo Teu amor intenso,
              Confio naquilo que Tua graça faz,
              Anunciando ao mundo a verdadeira paz.

              Ouvindo, na serenidade, a Tua voz
              Jamais ficarão fechadas as nossas portas
              Para testemunhar às almas, ainda, absortas
              Que não és morto mas ressuscitado e vivo, entre nós.


                                (Reflexão para o 2º Domingo da Páscoa, Ano A)

              

segunda-feira, 2 de maio de 2011

QUERO BEIJAR TUAS MÃOS

         Mãe, quero beijar as tuas mãos enrugadas,
         E agradecer todos os teus trabalhos.
         Nas suas veias correm as horas passadas
         Em sacrifício de caminhos e atalhos
         Da vida, com renúncias e canseiras,
         Nos instantes de cada dia e momento.
         Nunca viraste a cara ao sofrimento
         Nem renunciaste às dores e lutas traiçoeiras.

         Quero beijar essas mãos que me afagavam
         Enquanto no teu ventre me escondias.
         Então aí, as tuas religiosas esperanças acalentavam
         Um sonho de dor e amor e, com doces melodias,
         O fruto do teu ventre, em humildade, cantavam.

         Quero beijar tuas mãos que me acolheram,
         Ao entrar neste mundo, com um gemido,
         E, na ânsia materna, me ergueram
         Até aos teus lábios que meu débil corpo beijaram,
         Na alegria de mãe, por ter vencido
         A incerteza de um tempo atrás
         Quando duas vidas se encontraram,
         Crescendo, depois, na perfeita comunhão da paz.

         Quero beijar tuas mãos, nunca cansadas,
         Que sempre me aconchegaram ao teu peito
         Para eu saborear o teu delicioso leite.
         Mesmo não tendo tuas noites sossegadas,
         Tu sempre te reclinaste sobre o meu leito,
         Vendo, nos meus olhos, a gratidão de ter sido aceite.

         Quero beijar tuas mãos que, nos meus primeiros passos,
         Foram para mim a força da grande certeza
         Do encontro da alegria com a beleza
         Da mãe que me apertava nos seus braços.

         Quero beijar tuas mãos que, erguidas com emoção,
         Ajudaram a levantar as minhas para a primeira oração.

         Quero beijar tuas mãos que, em diária labuta,
         Amassaram a broa, o pão dos pobres,
         Fruto das canseiras, muito sangue e luta,
         Entrega, insónias e sentimentos nobres.

         Quero beijar tuas mãos que carregaram minha sacola
         Quando, em pequenino, eu corria para a escola.

         Quero beijar tuas mãos que, por amor me castigaram,
         Ensinando o caminho da virtude e honestidade,
         As mesmas que a enxada e a foice manusearam,
         Cavando e semeando em mim os sentimentos da verdade.

         Quero beijar tuas mãos, hoje, magras mas seguras,
         Sempre atentas ao meu peregrinar na vida,
         Mesmo estando com o Deus das alturas
         Serás eternamente a mãe querida.
         Como, quando criança, me ensinaste a rezar,
         Contigo, agora, em acção de graças, rezo também
         Ao Senhor que tudo fez por bondade e bem,
         Até a minha vida que tinha de começar
         No grande carinho e sacrifício de minha mãe.
      
         Num misto de profunda saudade e alegria,
         Quero ter-te sempre na minha memória;
         Lembrar-te-ei à Virgem Maria
         Mãe do Seu doce e amoroso Jesus;
         E a Deus-Pai, Senhor do Céu e da glória,
         Rogo que Ele te abrace na Sua luz.

                                                                      Manuel Armando
         (Para o Dia da Mãe, 1 de Maio de 2011)


segunda-feira, 18 de abril de 2011

DOS APLAUSOS, À CRUZ

              Entraste, Senhor, no palco da vida
              Sem prévia notícia nem alarido
              E coroaste a esperança quase perdida
              Dos que rejubilaram por teres nascido.

              Cresceste sereno na oração e trabalho,
              Abriste teu tempo a quem dele precisou,
              Mostraste ser Caminho e não atalho
              Para todo o homem que Te aceitou.

              Na vida pública Te mostraste
              O arauto da concórdia e da verdade.
              Sem receio, mas com firmeza, denunciaste
              Os arrogantes, os soberbos e os injustos,
              E todos os delatores da humanidade
              Que fizeram, depois, pesar sobre Ti duros custos.

              Calcorreaste vales e montes,
              Comeste com os pobres e pecadores,
              Deste a beber água das celestiais fontes,
              Verberaste a prosápia dos grandes e senhores.
              Nada temeste por tal atitude;
              Tinhas como missão, nobre e sublime,
              Mostrar ao Homem, caído no pecado,
              Como só toda a virtude
              O eleva e redime,
              E que, se acreditar em Deus, será exaltado.

              Por tudo quanto disseste
              E fizeste,
              Te quiseram como Rei,
              Mas Teu amor era outra lei.
              Refugiaste-Te no silêncio e humildade
              Duma realeza para a eternidade.

              Subiste ao Templo de Jerusalém,
              Inflamaste entusiasmos e ardores nas almas;
              Estenderam, por isso, pelo caminho além,
              Oliveiras da paz e, do martírio, as palmas.

              Também eu, Senhor, corri a Teu lado
              Na alegria quase desmedida e promissora
              De Te seguir sempre pela vida fora,
              Mas detive-me, a meio, envergonhado;
              Juntei-me àqueles infames grupos
              Que Te vaiaram com apupos,
              Nas cruciais e amargas horas de tormentos.
              Senhor, eu nem desejo lembrar tais momentos.

              Perdoa, sim, ao meu coração contrito e humilhado
              A antiga indiferença ou descuido cobarde e sossegado.
              Grato pela Tua entrega no patíbulo da Cruz,
              Te rogo: não leves em conta a minha deserção.
              Que possa eu compreender a Tua mortificação,
              Para Te amar e viver Contigo, Bom Jesus.

                                                                     Manuel Armando
                (Reflexão para o 6º Domingo da Quaresma,
                      Dia de RAMOS, Ano A)


quarta-feira, 13 de abril de 2011

DEUS VAI MORRENDO,

    Já se tornou bastante vulgar e até banal, por ocasião da Páscoa Cristã, surgir algo que parece abalar os fundamentos da Igreja e a fé de muitos cristãos. É provável que determinados movimentos sociais e literários façam oscilar alguma formação intelectual, espiritualmente mais débil, mas tornam-se também ocasião propícia para se confirmarem convicções, fornecendo tempo de procura e esclarecimento arreigado nas raízes da verdade.
    Desde há muito tempo se apregoa a morte de Deus. Nietzsche quis deixar aos seus seguidores e simpatizantes a certeza insofismável de que “Deus morreu”, traído pela sua piedade para com as pessoas. Morreu porque constituía o maior perigo para os “homens superiores”.
    Fôssemos nós dar assentimento a tal afirmação e teríamos a sociedade completamente virada para a guerra e luta de poderes, sem respeito de uns pelos outros, e na tradução de morte em tudo quanto se nos depara como fonte inesgotável de vida.
    Na insaciabilidade que grassa pelo mundo além, não ficaria pedra sobre pedra nesta pobre humanidade, sobretudo naqueles meios onde há uma desigualdade gritante entre alguns a quem nada falta e os outros que passam a vida a pedir esmola.
    Certo é que todos foram postos no mesmo caminho e, ainda, chamados a um bem-estar igual. Todavia, reparamos não suceder isso, porquanto os mais fortes açambarcam os direitos dos mais pequenos, carregando-os apenas com o ferrete dos deveres.
    Acreditamos que o Cristo, na entrega total e livre à Redenção, não deixou ninguém fora do seu projecto.
    Ele propôs, aliás, que todos os de boa vontade se associassem nesta obra de salvação do mundo e do Homem. Mas, parece que este não está a aceitar tal desafio e, pelo contrário, conduz a uma derrocada total a humanidade que se apresenta sem valores nem referências.
    Reparamos, portanto, que nos tempos actuais, serão os próprios membros desta Igreja a fazerem denegrir a sua respectiva essência e dinâmica. E não será preciso ultrapassar os muros do nosso quintal, onde o amor se vai estiolando aos poucos, em favor dum agnosticismo progressivo, talvez baseado no desespero e desilusão que as sucessivas crises acarretam.
    Por outro lado, o facilitismo ou o laxismo no seio familiar, e nos outros vários quadrantes da acção humana, fundamentará a noção de o Homem poder tudo em si mesmo, gerindo a sua acção ao sabor do seu querer egoísta e interesseiro e não seguindo os critérios imutáveis do respeito pelos valores humanos e espirituais.
    Bento XVI lembra que a sociedade procura impor à Igreja uma mudança, moldando os seus princípios fundamentais às preferências ocasionais de alguns escalões dos indivíduos.
    Assim, onde cresce a leveza de responsabilidade, aquilo que é da ordem da fé vai sendo esquecido ou combatido. Os chamados cristãos que desejam erigir uma religião à sua medida e interesse, procuram, por todos os meios e com os mais variados argumentos, crucificar e banir, no dia-a-dia, o Deus, amoroso mas exigente.
    Ausente Deus na vida e manifestações humanas, é fácil prevermos a pertença derrocada da verdade e a queda inevitável de todos no abismo.
    Da Liturgia de Sexta-feira Santa, bem podemos adaptar aos tempos de hoje os impropérios ou censuras que reportam ao Profeta Miqueias e que serão duras interrogações para os nossos desaforos: “Povo meu, que te fiz eu, ou em que te contristei? Responde-me…” (Miq.6/3).
    Na realidade, os supostos crentes vão matando o amor, a família, a vida interior, a seriedade, a responsabilidade, a noção da justiça e da verdade. O Cristo Deus, assim, vai morrendo.
    Seremos capazes de O ressuscitarmos, algum dia?

                                                                                   Manuel Armando

quarta-feira, 6 de abril de 2011

ALELUIA! ALELUIA! CANTEMOS

          Foi num Domingo, ainda bem cedo,
              Quando as mulheres correram, mas cheias de medo;
              A levar perfumes e unguentos
              E, nos seus pensamentos,
              A esperança de encontrar o Corpo de Jesus,
              Morto e descido da Cruz.

              Terminava a madrugada, despontando novo dia
              E a frescura da natureza
              Trazia consigo a certeza
              Que um mundo renovado surgia.

              O Túmulo estava vazio e na escuridão,
              Enquanto uns anjos anunciavam a Ressurreição.

              O Jesus, como havia prometido, venceu a morte,
              Mudando para todos os homens a sorte;
              Ressuscitou o Salvador
              Que trouxe o perdão ao pecador;
              Apontou os caminhos da glória,
              Aos humanos aliviou a dor
              E ensinou-lhes o segredo da vitória.
             
              É a Páscoa da Redenção,
              O Senhor Jesus voltou à vida,
              Cantemos com alegria incontida
              E, no ardor do coração,

              Anunciemos a cada um nosso irmão
              Que Jesus, entre nós, ressuscitado,
              Vencerá a tentação e o pecado
              Do Homem que, mesmo na fragilidade,
              Procura a felicidade
              Da Salvação.

              Aleluia! Aleluia! Aclamemos o Cristo amoroso
              Que foi da morte vencedor,
              E ressurgiu do túmulo, glorioso.
              Ganhou o mundo outro vigor
              Para acreditar, forte e sem temor,
              Que a Graça do Deus Vivo é que salva,
              Pois traz vida nova à nossa alma.

              Aleluia! Aleluia! Louvemos a Deus, Pai e Senhor,
              Porque nos abraça e abençoa com Seu infinito amor.
     
              Aleluia! Aleluia!

                                                              Manuel Armando
          (Reflexão para o Dia de Páscoa, Ano A)

terça-feira, 5 de abril de 2011

APRESENTANDO-ME, QUASE…

          Não seria necessário fazer qualquer forma de apresentação. Mas imagino ser de bom-tom escrever alguma coisa, não sobre a minha pessoa, mas como aviso de eu, apenas, pretender em algumas ocasiões, expressar aquilo sobre que medito numa total liberdade de consciência, sabendo que nem sempre cairei nas graças de quem ousar ler, até por mera curiosidade.
          É natural que todos nós tenhamos a tentação de entendermos a vida, no constante dia-a-dia, segundo os nossos critérios ou necessidades pessoais e que pensemos, por tal, sermos os detentores da verdade ou da única via de interpretação do desenrolar dos acontecimentos e metamorfoses dos insatisfeitos que somos.
          Acredito, com todas as fibras da sinceridade que, na permuta das ideias, dos modos diversos de observar tudo quanto se desenvolve à nossa volta, reside o fulcro ou o motivo duma sociedade organizada, respeitadora da sã convivência, em ordem à construção da fraternidade universal.
          Por tal razão, acedo ao propósito de utilizar alguns minutos, não porque esteja sem nada para fazer, mas aceitando o facto de muito ter para aprender pela reflexão pessoal ou através das achegas que os mais doutos e traquejados nas andanças da escrita me possam franquear. Bateram-me à porta, aqui estou.
          No pluralismo das sensibilidades e visões sobre a progressão dos acontecimentos, situados em qualquer tempo ou espaço, e sem peias divisionistas, constrói-se uma espécie de família no seio da qual todos têm o seu lugar próprio, com direito à relação e na tolerância recíproca. Ninguém atropela o outro e cada um é honrado no seu assento e missão.
          Não hei-de imiscuir-me na maneira de ser ou pensar de alguém, mas também jamais ficarei inibido de expor a verdade que o é para mim, ainda que não para os demais.
          Bem sei que não seria necessário dizer isto. Todavia, este intróito poderá servir, nalguma ocasião, para desculpa de qualquer lapso fortuito e ocasional.
          Dentro destes princípios por que me norteio, procurarei os assuntos dentro dos quais eu possa estar capaz de reflectir. E quem dá daquilo que tem, a muito mais não poderá aspirar. O sapateiro não poderá ultrapassar a sola da chinela.
          E para não alimentar expectativas vãs que não correspondam ao compromisso, adianto que, só de vez em quando, aportarei por estas paragens.
          Procurarei, assim, ser mais uma pequena peça desta engrenagem que está, desde há longos tempos, em movimento e ainda não enferrujou.
                                                                            P. Manuel Armando  
                                           (Primeiro escrito para Jornal da Bairrada)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

NA MÃO DE DEUS, A VIDA

Desconhece a razão mas, bem no fundo,
O Homem não aceita, de bom grado, seu mundo
No relativismo vivido entre a derrota e a morte,
Sem a esperança de encontrar o verdadeiro norte.
Grita, aos ventos, a revolta da sua pequenez,
Maldiz todo o sofrimento ou agruras da sorte;
Desorientado pela teimosia da sua altivez,
Recusa o encontro silencioso com a graça da Fé
Que o seguraria sempre firme e em pé,
Com um coração sincero e vontade mais forte.

Por veredas tortuosas ou estreitos carreiros,
Cada um poderá tentar responder
A quem nos chama aos lugares cimeiros
Da ressurreição consciente e livre do dever.

Após grandes esforços e cansaços
Do trabalho nesta enorme construção,
Alguém o espera e lhe abre os braços
Para acolhimento e experiência do perdão.

Mas de muitas bocas saem os sinais dum fim,
Armas e canhões cospem a podridão do pecado;
Nações e seus grandes senhores forjam, assim,
O desespero do Homem, já de si, torturado
Pela fome, injustiça e ambição,
Sem esperança de entrar no festim
Da Ressurreição.

Exangue, quase sem força nem vontade
De ressurgir, a humanidade
Entrega-se ao seu desnorte
E cultiva, cobardemente, a prática da morte.
O Senhor Deus, porém, numa amorosa contrapartida,
Diante do Homem abre a porta da Vida.

Com voz poderosa e autorizada,
Plena de bondade e compaixão,
Levanta o pecador, de um mundo que é nada,
Para lhe mostrar novos rumos de Salvação.
No Seu olhar divino de grande ternura,
Se encontra toda a certeza da felicidade futura.

Dá-nos, Senhor, um desejo de vida nova,
Afasta-nos da miséria e escuridão,
Que, no sofrimento diário, vejamos a prova
Da confiança provinda pela redenção,
Sentindo sempre, na queda ou desilusão,
A firmeza e o conforto da Tua mão.

Manuel Armando

(Reflexão para o 5º Domingo da Quaresma – Ano A)