Quem sou

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Vocação: Padre - Outras ocupações: artista de ilusionismo e hipnotismo

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

QUEM PAGA A DÍVIDA?

ERA UMA VEZ…

OU… QUEM PAGA A DÍVIDA?
                                 




Afirma-se, sem rebuço, que cada português deve, em média, uma batelada de euros ao Fundo das economias internacionais.


Dou mil e uma voltas ao miolo, faço uma retrospectiva aos meus tempos anteriores e confesso, com toda a sinceridade, não topar qualquer apontamento de dívida, por mim contraída e ainda em aberto. Julgo não encontrar no mais fundo da minha consciência ou no baú do subconsciente nenhuma memória de facturas por saldar. E agora, quando reparo que as minhas economias não são elásticas até procuro evitar os gastos supérfluos.


Também atesto, por todas as alminhas, que não comprei submarinos, nem aviões ou helicópteros, não negociei estradas ou caminhos-de-ferro para chegar mais rapidamente ali ou acolá. Nem sequer estabeleci quaisquer relações comerciais com o exterior. O meu produto não comporta pactos que me endividem.


Por aquilo de que me acusam, e devendo pagar a tal minha parte da dívida contraída por outrem, descubro que terei de passar o resto da vida sem qualquer capacidade de saldar o que me impuseram sobre os ombros, pois o que aufiro não dá para fazer reservas e os recursos nucleares não aparecem.


Fico, pois, pesaroso e perplexo diante de toda a conjuntura actual e, ainda, nem descortino as veredas por onde poderei fugir às portagens da vida.


Dizia minha mãezinha que “dívidas e pecados, cada um pagará os seus”. Sei que o pecado tem dimensão social e colectiva, mas creio que também o dever de pagar abrangerá todos. Não se peça, portanto, o aperto do cinto a quem nem tem barriga para aguentar tal espartilho.


Os reformados já pedem fiados os medicamentos e comem as côdeas encarquilhadas e rijas que demoram muito tempo a digerir. Os desempregados acabarão por ter de destapar os contentores em busca de rebuscas para enganar a fome. As crianças poderão ir para a escola com a barriga “a dar horas”, enquanto outras esbanjarão.


As subvenções deverão ser olhadas mais nos trâmites da justiça.


Neste momento, muitos barafustam; outros exigem e uns terceiros pregam a paciência.


Nestas circunstâncias, atrevo-me a pôr mais uma acha na fogueira, de si, já muito rubra. Sugiro, então, a todos os que se alcandoram nos lugares cimeiros que sejam os primeiros a apresentarem o seu exemplo de esforço. Os senhores presidentes ou ex-presidentes disto e mais daquilo (nem que seja da República), todos os senhores ministros e deputados, os dirigentes maiores dos partidos políticos (sem distinção nenhuma para ninguém) prescindam de dois ou três ordenados e reformas ou outras alcavalas e benefícios (e ainda lhes restarão mais algumas minas donde lhes escorre sempre o maná…), em favor de toda a comunidade e tudo mudará de aspecto porque se põe a descoberto e será respeitado o exercício da elementar justiça. A face desta sociedade irá transfigurar-se, de certeza.


Caso contrário, voltaremos a cantar, sentida e dolentemente, a balada do Zeca Afonso: “Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”.


Sem mais.





P. Manuel Armando

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

FOME DO PÃO OU FOME DE DEUS?


Todos sabemos que a fome é um fenómeno das várias latitudes, no tempo e no espaço, enleando nas suas garras milhões de seres humanos e castigando, sobremaneira, os mais inocentes, as crianças, que nada fizeram de errado para serem atingidas por tal flagelo.

Desencoraja-nos a realidade de sabermos que não existe ninguém privado do pleno direito de possuir o mínimo essencial, onde faça assentar um desenvolvimento digno e uma estabilidade económica para viver como pessoa, mas que, pelo contrário, muitos não usufruem, mesmo nada, de pão, instrução, habitação ou saúde.

Falamos de estômago cheio, porquanto, com felicidade, ainda não somos abrangidos por aquelas crises mais acutilantes que testemunhamos nas comunidades dos terceiros mundos. Será, portanto, bastante inverosímil acreditar que as gentes mais novas e as futuras venham a intelectualizar a dimensão dos efeitos catastróficos da penúria que amarfanha ou dizima populações inteiras.

Há umas décadas atrás, viveu-se um período assaz difícil mas, por que não dizê-lo, com equilíbrio familiar, pois experimentado sem grandes floreados nem manifestações espampanantes. Não se exibiam opulências vãs e as queixas eram sufocadas pelo trabalho de cada dia e igualdade de todos os membros da família.

É verdade que tais épocas nem foram o protótipo de um viver e, por isso, não deixaram saudades. Mas, hoje, será benéfico, em diversos e numerosos casos, experimentar o cadinho da modéstia e da carência.

Actualmente, presenciamos a fome à nossa volta e procuramos analisar o porquê da sua presença. A falta de trabalho, as leis permissivas, laxistas e inconsequentes, o convite à inactividade local, a deserção das aldeias e seus campos, a filosofia da dependência parasitária do trabalho e rendimento dos outros, o aumento, em número, dos quadros superiores sem rumo de actividade, poderão ser razões aduzidas para o crescimento da fome no mundo. Todavia, não nos podemos quedar nestas desculpas que, no fundo, são um tanto ou quanto esfarrapadas. Teremos de penetrar no íntimo do homem para descortinarmos a causa terrível da fome.

O homem deprava-se em larga medida. Cria determinadas riquezas mas canaliza-as para a guerra, nas suas mais variadas vertentes e manifestações ou para gozos e jogos pessoais e de grupos. Os povos que já possuíam riquezas naturais são, agora, despojados delas pela ambição desmesurada dos donos das grandes economias mundiais. Onde se encontravam condições justas e decentes de vida, passou a experimentar-se a escravização, a incapacidade de cultura, a fome e a morte. É a incoerência do trato humano daqueles que gritam contra a fome, cobardemente porque a provocam com o seu egoísmo centralizador de bens.

Que não se busquem também outras razões no aumento demográfico porque tal não passará de tremenda trapaça e ignominiosa mentira. As leis aprovadas, por toda a parte, em relação à vida e seus afins, estimulam a miséria moral e o aviltamento das famílias e minimizam o fruto do seu trabalho pois quando não se lhe atribui a devida importância ele deixa de ser realizado e a fome invade os sectores vitais do agir humano.

Já, muitas vezes privei com a fome física. Contudo, reparo que esta é sempre o produto da inconsciência e embotamento sobre a fome da verdade. Se esta, a verdade, fosse encontrada e respeitada aquela, a fome, seria vencida para todo o sempre. É uma utopia? Certamente. Todavia, torna-se severamente urgente, cada um tentar descortinar a dignidade a que todas as pessoas têm direito.

Não é descabido lembrar o princípio de todos os homens serem criados na igualdade de direitos e deveres. O facto de Jesus Cristo ter avisado de que sempre existiriam os pobres, não significa que preconizasse a miséria humana. Desejava, isso sim, é que todos continuássemos a trabalhar em ordem a melhorarem-se as condições de vida.

A fome acontece onde o amor não escorre nas fontes das comunidades. Lembramos a viúva pobre que tornou a sua oferta rica na partilha com outros que passavam as inclemências da fome (Lc.21/1…).

O mesmo Cristo apelida de felizes todos aqueles que, tendo a consciência de serem pobres, trabalham a fim de os demais poderem também alcançar o sustento côngruo pela humildade e persistência. E afirma isso mesmo sem quaisquer reservas nem sentidos alienantes: “Felizes os que agora tendes fome porque sereis saciados” (Lc. 6/21 ou Mt. 5/6).

A verdade insofismável é que existe a fome material para milhões de pessoas no mundo; no meio em que vivemos, ela está presente. Mas nada mudará se ninguém se preocupar em descobrir e fomentar a igualdade de direitos para todos os filhos de Deus.

A fome física não será vencida, nunca, se a fome de Deus e da Sua Verdade não for saciada.

Razão para a oração de mesa que assim reza: “Senhor, dai pão aos que têm fome e fome de justiça aos que têm pão”.

P. Manuel Armando

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ADMIRAR PARA IMITAR





Era uma vez...OU… ADMIRAR PARA IMITAR


Gostamos de ler e estudar a História, fazendo dela uma análise crítica elucidativa sobre acontecimentos e feitos de comunidades ou pessoas. Lidamos com muitas coisas romanceadas e admiramos os personagens e os autores. Quase convivemos com homens e mulheres ilustres que marcaram a sua época e o seu mundo com ideias e factos. Estes adquiriram, por um direito próprio, a perpetuação nos anais das recordações de ruas ou estátuas nas praças públicas.


Ansiamos, com naturalidade, conhecer os seus feitos ou como se demarcaram dos demais indivíduos que, por seu turno, parece nada terem realizado de extraordinário ou normal na vida por que passaram.


A promiscuidade dos grandes artífices da humanidade com os inúteis constitui determinado termo de equilíbrio. Uns violentam o desenrolar dos tempos para caminhos sempre futuros e criadores de paz e desenvolvimento, enquanto os segundos travam o andar e emperram os grandes empreendimentos.


Seja como for, mas as diversas fases históricas prendem a nossa atenção e espevitam a vontade curiosa para também nós experimentarmos algo que nos personalize e subtraia ao marasmo entorpecedor da inutilidade. Há sempre pessoas que acarretam consigo carismas sociais, culturais, artísticos, políticos, económicos, desportivos ou de religião que as tornam singulares. E porque tudo nelas foi aproveitado em prol de um benefício comunitário, será impossível que essas personalidades passem, alguma vez, da memória dos tempos. Existiu sempre substrato sério que tornou bem firme o alicerce da construção segura. Passaram os tempos com ventos e tempestades mas as pessoas com as suas coisas e ideias permaneceram de pé, suscitando a contemplação e exemplo aos outros.


Não teremos nunca a hipótese de trazer à memória todas as figuras eminentes nos vários campos das actividades humanas nem, sequer, de as imaginar. Mas, ainda bem que muitos não deixaram o esquecimento ser a paga para quem tanto fez e ensinou.


Trazer à evocação individualidades importantes nas suas respectivas vertentes é permitirmo-nos a veleidade de concluir que dotados somos todos nós, os inseridos nesta humanidade imensa, mas que pouco ou nada realizamos baseados no paradigma da infinita plêiade de homens e mulheres que souberam, na humildade e no silêncio, fazer render os talentos de que foram exornados.


Desde a criação do ser racional, sempre foram inumeráveis as figuras proeminentes que ficaram indelevelmente fixadas nos memoriais da História. Não há épocas nem locais que se diferenciem nesta verdade. É saudável observar Jesus Cristo, centro irradiador de todas as capacidades de intimidade e exterioridade, protótipos para quantos se vão preocupando por um mundo mais feliz nos diferentes sentidos.


Quem não admira a actividade de todos os Apóstolos, ou a ciência, bondade, abnegação, altruísmo, o estudo e as descobertas variadíssimas nos campos gerais da capacidade mental e física de tantas e tantas outras individualidades?!


Aproveitando somente a título de exemplos, mais perto de nós no tempo, como não se deixar tocar e entusiasmar com uma Doutora Rita Levi-Montalcini, neurologista italiana, prémio Nobel da Medicina que, aos cem anos de idade, continua com a mesma filosofia de vida e afirma: “Gosto é do que faço em cada dia”?!


Jamais poderemos passar ao lado do controverso Leonardo Boff, eivado da profunda espiritualidade com que contempla a existência, os humanos, o universo, as coisas… Escreveu: “Estamos sempre em génese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos”.


Admiramos Edith Stein, - Santa Teresa Benedita da Cruz, - polaca, de origem judaica, filósofa, carmelita, que traz em sua intensa vida uma síntese dramática deste século. Nela olhamos a coragem do Padre Kolb. Ambos mártires do Nazismo que se ofereceram, vítimas do amor pelos outros.


Passamos diante da humildade e acção de Teresa de Calcutá, Mahamat Gandhi, Luter King, alguns dos últimos Papas da nossa Igreja, e inúmeros outros vultos universais que nos legaram uma herança de esperança num mundo melhor e mais sorridente.


Continuamos a cantar, como disse o nosso Camões, também ele entre os grandes, “aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando” (Lusíadas, Canto I, estância 2).


E fazemo-lo não para reproduzir os seus ditos bombásticos e bater-lhes palmas, mas a fim de nos apercebermos do homem importante que existe no íntimo de cada um de nós. Se contemplarmos a todos desta forma positiva, pode ser que, ao menos imitando-os, procuremos realizar alguma coisa útil e construtiva na vida.



Manuel Armando

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

...NÃO É FELIZ OU INFELIZ QUEM QUER



OU… NÃO É FELIZ OU INFELIZ QUEM QUER

Quantos serão para todos nós, em cada sítio e momento, os encontros fortuitos que experimentamos tanto, ao vivo. Às vezes nem damos conta de tal coisa. Mas, se estivéssemos abertos a quanto acontece à nossa volta, de certeza, que o nosso próprio agir nos mudaria, em muito, as atitudes de aceitação dos pequenos problemas. Entenderíamos aquelas situações expressivas e difíceis que ombreiam connosco sem que disso, frequentemente, nos apercebamos.


Embrenhamo-nos demasiado no nosso ego, assumimos posições budistas e idolatramos o nosso umbigo. Não elevamos os olhos até aos andores que, à nossa volta, transportam as carências, as incompreensões, as desilusões, os cansaços, a escravatura, ou também a liberdade, a altivez e a humildade silenciosa, a solidão e as cruzes que se arrastam com alguns laivos de aceitação embora, também, grande parte delas carregadas de desânimo ou desespero.


E tudo isto, ocasionalmente, sem a mínima possibilidade de ajuda pretendida e necessária, porque as coisas acontecem caladas, escondidas e envergonhadas.


O corrupio frenético de cada um, em todos os instantes, parece querer tapar a realidade difícil que acabrunha tantos pais e mães de família, homens e mulheres que sofrem na sua pele os horrores de um viver que, supostamente, deveria dirigir-se para a felicidade mas que, pelo contrário, arrasta na direcção do descalabro ainda quantos idealizaram um caminho diverso daquele ao qual passaram sem culpa individual.


O modo de encarar o nosso eu mudaria, com inteira certeza, se nos fosse dado perscrutar o lado interior de quem corre à volta de nós.


Aqueles formigueiros de pessoas que se apressam, nos carreirinhos e aos atropelos, cruzando-se nas grandes superfícies ou centros de agitação, quase nos alienem e impedem de vivermos o sentido pleno do dia-a-dia que Deus nos proporcionou com tudo o que é bom ou traz provações que, sendo de si cáusticas, endurecem, todavia, as capacidades de resistência.


A movimentação das aldeias ainda reserva no seu interior uma tranquilidade quase equilibrada das famílias e dos grupos que se conhecem reciprocamente e demonstram, até, algo de solidariedade. Mas revistamo-nos com a pele de quantos não podem deixar a azáfama quotidiana a qual não conhece interregnos nem descanso. Experiência difícil, mas enriquecedora, em concreto.


Isto que digo não é de forma nenhuma uma prédica para ninguém. Ou, melhor, é uma meditação séria para mim próprio. Parece que eu vivo em paz, mesmo com as inerentes dificuldades naturais de vida diária humana e de missão. Não despejo a minha arrogância ignorante sobre quem quer que seja, só porque não terei alcançado, alguma vez, os meus objectivos imediatos. Procuro não tirar ilações precipitadas sobre acontecimentos, cujos fundamentos eu desconheço. É uma filosofia de vida, mas penso ser a mais correcta e cordata.


Era uma senhora ou menina, como a posso retratar, a quem, num momento rápido, lhe ouvi o nome, a nacionalidade, a maneira de encarar os seus dias. Enquanto ela procurava comprar uma bebida para presentear algum familiar, indagou sobre os meus conhecimentos enólogos, como ajuda. Fraca porta a que bateu. Mesmo assim, meio a recrear-me, indiquei determinada marca de Whisky como se eu fosse, de verdade, apreciador ou entendido.


O diálogo foi, forçosamente, fugaz. Mas sobrou tempo bastante para lhe responder à pergunta que me disparou, não sei porquê: “Você é feliz?”


Eu próprio quis correr para onde houvesse um espelho que facilitasse contemplar-me e ver se o meu cariz indicaria algum problema. Certo que, dias antes, eu mesmo senti, e não sei porquê, uma ansiedade ou angústia dentro de mim mas que logo se desvaneceu e ainda bem.


A senhora, menina, repito a minha consideração, discorreu em catadupa sobre as suas incertezas e vivências de escravatura autêntica que, desde tenra idade, ia penando. Agora, com os seus vinte e tantos anos, estava sujeita aos caprichos económicos de um holandês octogenário que a agrilhoou no Brasil para onde, então, se dirigia. E mais não disse. Os sinais sonoros anunciaram que as pessoas não podem procurar auxílio para quaisquer mazelas do foro interior.


Também para mim soaram os mesmos sinais. A vida é assim. As pessoas passam por nós, ou antes, tropeçamos uns nos outros mas, nem sempre depreendemos que, diante das dificuldades humanas de outrem, esquecemos de agradecer a Deus o nosso bem-estar.

Manuel Armando

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

...TODOS TEMOS O DIREITO DE VOAR


ERA UMA VEZ…

OU… TODOS TEMOS O DIREITO DE VOAR


Foi há já muito tempo que viajei pela primeira vez de avião. Nem quase me vou lembrar de todos os pormenores e, também, isso pouco interessará para o caso. Sei, apenas, que entrei no bojo de tal bicharoco com o coração mais pequenino que um grão de trigo.


Fiz o trajecto, num eito de três cadeiras, ocupando a do meio, entre os outros dois comparsas. Íamos para as terras do tio Sam em missão de entretenimento, na tentativa de aliviar as agruras e saudades de emigrantes e, porque não, receber alguma recompensa.


Um elemento do trio era, nem mais nem menos, a grande escritora e poetisa Odette de Saint Maurice que, ao tempo, elaborava umas crónicas para a Rádio Emissora Nacional. Com grande valor, diga-se, essas deambulações literárias.


Recordo as achegas que ela ia ditando para o papel enquanto partilhava, também connosco, seus companheiros de aventura e acção, algumas das reflexões pesadas pelo muito saber, sensibilidade e grande habilidade.


Referia a grandeza de um cosmos criado e observado em oposição à mesquinhez ou pequenez do homem comum. Pode este ter descoberto muitas técnicas para desvendar até os arcanos de um universo sem fim, mas não passa de um ínfimo ponto, quase imperceptível, a existir no emaranhado mistério do mundo criado e usufruído por todos nós que deveríamos respeitá-lo e trabalhá-lo em ordem ao equilíbrio total.


Volvidos vários anos e feitas, entretanto também, algumas outras viagens semelhantes, continuo o esforço de me reconhecer este átomo minúsculo que sou, escolhido, apesar de tudo, para fazer parte integrante e activa na tarefa de construção da harmonia e da paz globais.


Reparo, através dos vidros destas exíguas janelas hermeticamente fechadas, a grandura de uma bola que parece estar de pernas para o ar, com as nuvens da parte de baixo da nossa observação com toda a sua beleza e úberes de água que regará aquela terra que produz o pão devido a todo o ser humano.

Imagino, cá de cima, essa terra a abrir a boca procurando não perder sequer uma gota, tal-qualmente aqueles passarinhos implumes que, nos seus ninhos onde nasceram e continuam a crescer, abrem os bicos para receberem o alimento que a generosidade e o sentido de responsabilidade dos progenitores respectivos lhes levam.


Confesso que sempre mais tenho receio de caminhar nestas alturas, mas, ao mesmo tempo, invejo positivamente aqueles que transcorrem este cosmos, dentro das naves, procurando descortinar a verdade da Criação. Um dos primeiros astronautas desta nossa história moderna foi interrogado sobre se encontrara Deus em algum sítio, uma vez que teria andado muito perto do Céu. Ele respondeu com simplicidade, respeito e firmeza que, embora não O tivesse topado de modo pessoal em algures, O experimentou presente em toda a maravilhosa ordenação do globo que habitamos.


Ora, pois na realidade, se a nossa vaidade não fosse o véu opaco que nos escurece a inteligência, de qualquer modo e em todos os lugares, reconheceríamos a insignificância que somos e descobriríamos o Criador.


Direis que tudo isto é uma congeminação muito idealista ou aérea. Não admira, e perdoem-me o facto, porque estou a escrever este texto dentro daquele aparelho que chamam avião.

Manuel Armando

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ERA UMA VEZ...Ou…TODA A ATENÇÃO É POUCA!


Uma coisa normal e humana é o facto de qualquer pessoa ter algo que lhe ocupe alguns tempos livres de que possa dispor para se valorizar cultural e sociologicamente. Efectivamente, há tanto de útil e aproveitável que até se torna defeito e quase pecado de omissão não aproveitar tantas fontes de riqueza emocional que estão ao alcance de toda a gente, ainda que em condições e graus diferentes.



Quando alguém não pode “brincar” com aparatos de gastos astronómicos deve lançar a mão às coisas que, por mais comezinhas que pareçam ser, terão um valimento de enorme alcance.


Tornar-se-ia fastidioso pedir a todos os amantes de entretenimentos que os enumerassem para uma listagem completa. Seria complexo. Os coleccionadores de tudo e mais alguma coisa, facultariam uma fila interminável de temas e objectos que, mesmo trazendo satisfação e ocupação ao ego de cada um, seriam a denúncia de tantos dinheiros aplicados e sustento de grandes recreações e gastos.


Desde as produções de peixes e pássaros, de cães, gatos e outros animais mais diversos, até às colecções de notas, moedas e selos, caixas, pacotes de qualquer coisa, canetas e relógios, peças de roupa e calçado, miniaturas de tudo, e por aí adiante, um manancial ou um caudal se engrossa sempre mais.


De tudo há concursos, certames, mostras e vendas.


Muitos trabalham só para esses momentos; outros espreitam apenas, porque levados pela curiosidade e incapacidade económica de ir mais além disso.


Na verdade, a vida assim atinge uma diversidade de cambiantes extraordinariamente enriquecedores não só para quem realiza como ainda para aqueles que dispõem das oportunidades de usufruir e embevecer-se, simplesmente, com a observação de semelhante ocupação cultural.


Todavia, por vezes, os exageros que acontecem por entusiasmo e distracção, pagam-se a um preço bastante alto.


Não sou coleccionador de coisa alguma, mas recordo que, há anos atrás, me ofereceram um casal e meio de codornizes. Em vez de as reduzir a um estufado ou fricassé apetitoso (feito por mãos hábeis, não pelas minhas, claro), optei por arranjar-lhes uma capoeira onde começaram a pôr ovos que, depois em chocadeira, reproduziram a cem por um. Para resumir, posso afirmar que, volvidos alguns meses de curiosidade e arrebatamento, o número de tais aves subia a várias centenas. As rações tiveram que aumentar de modo uniformemente acelerado e ascendente. De tal modo as coisas se iam processando que, quando “acordei” para a realidade, já só tinha um braço de fora e, felizmente, também a cabeça para pensar e, ainda, os olhos para ver. Estes bichinhos tanto comiam que quase me iam engolindo por completo. Apliquei travões a fundo e decidi, com sentida mágoa é certo, colocar ponto final à história que me consumia tempo e dinheiro.


Porquê este arrazoado episódico?


É que no desenrolar da crise económica agora vigente, deparamos com distracções de famílias que tentam acompanhar e sustentar a avalanche de exigências dos elementos mais novos da casa que não são guiados a avaliar os gastos demasiados ou os desperdícios de coisas e tempos que jamais aceitarão não experimentar. E no receio de as coisas descambarem “para o torto” os que deveriam ser os mais responsáveis continuarão a fazer caretas e figas à crise, endividando-se por causas vazias de sentido mas promotoras, apenas, de vaidades e espírito de competição.


É uma educação que não gera agressividade de procura pessoal consciente e responsável, mas conduz à consequência de se tornarem indivíduos sem valores nem bases para, eles próprios, criarem as suas defesas inerentes, frente ás dificuldades que ainda estarão para surgir.


Estou em crer, ou mais bem dito, conhecem-se pais e mães de família incautos que vão sendo autenticamente engolidos pelas reclamações e exigências desmesuradas dos filhos. E o pior ainda é que esse mergulho submerge em primeiro lugar a cabeça que perde a sua potencialidade de pensar e discernir as ocasiões e circunstâncias.


Criações, colecções, ambições, distracções podem ser preços muito elevados a pagar, sobretudo por quem, sendo um pequeno sapo, quer apresentar-se num corpanzil de boi.


Manuel Armando





Manuel Armando

domingo, 25 de julho de 2010

ERA UMA VEZ…ATENÇÃO ÀS “FORMIGAS”…



Confesso que não me invade qualquer sentimento hostil em relação àqueles animálculos que incomodam tantas pessoas por causa das diabruras que fazem na sua actividade mais que agitada de todos os momentos. Para quem não sabe quero referir-me às formigas. Sobre elas move-me, apenas, um desejozito de vingança pelas vezes que competiram comigo aquando da minha idade de infância. É que, no momento de eu atacar o cartucho onde minha mãe guardava o açúcar, já elas tinham provado ou, mesmo, comido parte da doçura. E eu tornava-me quase furioso ao sentir que alguma, por engano, me atingia na língua injectando um humor bem acre e mordente.

Apesar de tais contrariedades de percurso, até nós as crianças do meu tempo, nos convencíamos prestar ajuda a tais bichinhos quando traçávamos e alisávamos os carreirinhos por onde haviam de passar limitando-os com murinhos. Pensávamos nós que elas seriam incapazes de o fazerem por si sós. Era e é um rotundo engano.

Ao longo da vida fui descobrindo o poder atómico que têm as formigas. Ainda me recordo do tempo de escola quando se lia um texto apelativo sobre a “formiga rabita”, sempre num trabalho insano e persistente a fim de amealhar o sustento necessário para o dia ou épocas seguintes. Elucidativa é, na verdade, a fábula de Esopo, traduzida por La Fontaine e comicamente versejada pelo nosso Bocage, em que contrastam, cara a cara, o labor da formiga e a “cantorolice” da cigarra imprevidente, no Verão.

Bem entendemos que sendo minúsculos seres, elas são agentes fortes para o equilíbrio da natureza. E quanta força física e de “vontade” demonstram quando transportam volumes enormes de comida e outros bens necessários para o armazém da sua casinha. Razão para o elogio bíblico: “No mundo existem quatro seres que são mais sábios do que os sábios: as formigas, povo fraco, mas que recolhe comida no Verão…” (Livro dos Provérbios, 30/24). E como se ajudam em grupo organizado! E o olfacto de que são dotadas, fazendo-as descortinar os objectos do seu interesse a distâncias tão longas! E como gostam do que é bom e doce!

É assombroso descobrir os “bunkers” que constroem para a sua defesa e hibernação. Até chegarem aí, caboucaram quilómetros de sulcos sem as sofisticadas máquinas da invenção humana.

Mas teremos imaginado já o quanto minaram, moeram, removeram ou destruíram até atingirem a construção do seu “habitat”?!

Supusemos, alguma vez, que um enxame de formigas, no silencioso desenrolar do tempo, cava a ruína total de uma casa sem que ninguém se aperceba e lhe acuda?

Estas minhas observações conduzem-me a uma reflexão muito séria sobre o que hoje testemunhamos, sem prestarmos a atenção devida. Estamos a viver numa sociedade que deveria fundamentar-se nas bases seguras de um passado de valores que não poderiam ter-se deixado desmoronar com a facilidade e inconsciência gritantes que, actualmente, experimentamos.

São os próprios grupos, famílias, associações, movimentos que vão minando a educação, a estruturação das seguranças humanas, cívicas, religiosas e vitais. Não se assume a exigência consciente de joeirar o que nos entra pelos olhos e ouvidos, vindo dos mais diversos meios de comunicação e, aí, temos a sociedade a ser minada nos seus alicerces que são as crianças que ouvem e vêem todas as maluquices do actual modernismo sobre homossexualidade, morte, guerras, separações e divórcios, violência doméstica e social, desinteresse ou hostilidade familiar por tudo quanto é compromisso e responsabilização.

Sucede mesmo que essas mesmas crianças são acicatadas, incendiadas e até, conscientemente ou não, atiradas pelos próprios pais contra pessoas sobre quem eles demonstram não nutrir quaisquer simpatias ou apreço, mas que expelem gana de denegrir algum trabalho por mais sério e útil que seja.

Estas crianças crescem na vida sem um padrão de verticalidade nem tempo ou condições para discernirem entre o bem e o mal, porque os seus responsáveis não lhes ensinam o trilho correcto de uma boa conduta. São absorvidas totalmente pelas suas ocupações permanentes do ballet, patinagem, piscina, dança, explicações, desporto, sem tempo para absorver uma aprendizagem familiar dos valores que, por seu turno, se vão desintegrando e sumindo nas sombras do desinteresse e do desconhecimento.

Há que dar luta sem tréguas a esta espécie de formigas minadoras e mortíferas que se escondem no próprio seio da família. Terá de usar-se muito insecticida, porque a construção do homem vai sendo pulverizada por estes bichos venenosos que, ao princípio, parecem inofensivos mas que são o paradigma de uma sociedade futura podre e sem objectivos que ultrapassem o que é meramente material e hedonista.

Triste mundo que vai morrendo para o futuro, se é que irá existir futuro.

Manuel Armando